E essa indecisão não acontece no vazio. A Europa inteira atravessa um momento estranho da sua história económica. Durante décadas, o continente habituou-se à ideia de que prosperidade, estabilidade e crescimento eram praticamente automáticos. Energia barata, globalização, segurança garantida pelos Estados Unidos e uma indústria altamente competitiva permitiram construir um dos maiores espaços de bem-estar do mundo. Mas esse ciclo terminou.
Hoje, a Europa cresce pouco, envelhece rapidamente e move-se devagar num mundo que acelera todos os dias. Os Estados Unidos lideram a inteligência artificial, a China domina cadeias industriais estratégicas e o Médio Oriente volta a tornar-se central através da energia e da geopolítica. Enquanto isso, grande parte da Europa continua presa entre burocracia, excesso regulatório e uma dificuldade quase estrutural em transformar inovação em escala económica.
Portugal sente esse problema de forma ainda mais intensa. Temos talento, temos estabilidade, temos qualidade de vida, mas continuamos presos a um modelo económico assente em turismo, imobiliário, consumo e salários baixos. Esse modelo trouxe estabilidade, sim, mas não trouxe transformação. E uma sociedade que troca ambição por conforto acaba lentamente presa na gestão do declínio, convencida de que sobreviver é o mesmo que prosperar.
O problema português nunca foi falta de talento. Fomos um pequeno país periférico que abriu oceanos, reinventou rotas comerciais e ligou continentes quando o mundo ainda terminava no horizonte. Essa energia continua cá. Está nos engenheiros, programadores, investigadores e empreendedores que hoje criam empresas globais a partir de Lisboa, Braga, Porto, Aveiro ou Coimbra.
O mais curioso é que Portugal já tem empresas a operar no futuro, enquanto o debate público continua muitas vezes preso ao passado.
A Feedzai usa inteligência artificial para detectar fraude financeira em alguns dos maiores bancos do mundo. A Sword Health está a reinventar a fisioterapia através de sensores e IA, competindo directamente nos Estados Unidos. A Tekever desenvolve drones e sistemas autónomos usados em vigilância marítima e defesa europeia. A Critical Software cria sistemas críticos para aeronáutica, espaço e defesa. E a Defined.ai trabalha numa das áreas mais importantes da nova economia, os dados que alimentam modelos de inteligência artificial.
Estas empresas nasceram num país pequeno, mas recusaram pensar pequeno.
E é precisamente aqui que o debate sobre o futuro económico português falha tantas vezes. Continuamos a falar de Portugal como se estivéssemos condenados a escolher entre turismo e austeridade, quando já existem centenas de pequenas e médias empresas portuguesas altamente tecnológicas, exportadoras e competitivas à escala global. Empresas discretas, muitas vezes desconhecidas do grande público, que conseguem competir com gigantes internacionais em nichos industriais, software, energia, biotecnologia e automação.
A mudança já começou. O problema é que o país ainda não decidiu acompanhá-la à mesma velocidade.
A inteligência artificial, a automação e a nova economia digital podem favorecer países pequenos, rápidos e adaptáveis. Pela primeira vez em muito tempo, a escala física importa menos do que talento, velocidade e capacidade de execução. Um pequeno grupo altamente qualificado consegue hoje criar produtos globais a partir de qualquer lugar do mundo. Portugal tem condições raras para aproveitar essa mudança, talento técnico forte, estabilidade, segurança, energia renovável abundante e uma população historicamente adaptável ao mundo.
Mas nenhuma oportunidade se concretiza sozinha.
Precisamos de um Estado mais rápido, menos burocrático e mais focado em permitir criação. Precisamos de licenciamento ágil, justiça económica funcional, capital disponível para inovação e uma cultura que recompense risco em vez de apenas proteger estabilidade. Porque hoje, em muitos casos, abrir uma empresa em Portugal continua a exigir mais paciência do que visão.
O maior risco para Portugal não é falhar. É habituar-se à mediocridade.
O século XXI vai pertencer às sociedades que continuarem a construir, inovar e acreditar em expansão. As outras limitar-se-ão a consumir tecnologia produzida noutros lugares.
Portugal já provou várias vezes na sua história que consegue surpreender o mundo quando abandona o medo da escala.
A questão é simples, queremos gerir o futuro dos outros, ou participar activamente na construção do nosso?


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