E para quem não saiba: o Opinião Pública acaba de ser defenestrado em praça pública por crime de lesa-câmara.
Passou-se assim: durante anos (muitos anos), o Opinião Pública era um dos queridinhos da câmara municipal. Vivia bem com a publicidade institucional municipal, à razão de umas centenas de milhar de euros a cada biénio, e com a imagem que via refletida quando se mirava ao espelho. Por sua vez, quem mandasse na câmara vivia bem com aquele tipo de ‘jornalismo’ burocrático e boletinesco, que se demitia de investigar o que quer que fosse e não questionava absolutamente nada.
O Opinião Pública era, por assim dizer, um aluno mimoso, daqueles meninos de cabelo lambido que decora bem a cópia e sabe fazer as contas elementares. A mais não se aventurava, não que elas bufam! Nem tal era necessário, e já por isso não admira que a professora o premiasse com tantas guloseimas.
Tão bom aluno era o Opinião Pública que nenhum de nós alguma vez lhe ficou a dever. Passemos em resenha algumas das polémicas locais dos últimos anos, vai uma amostra? O pavilhão do Centi no Parque da Devesa? O Eco-Parque Industrial de Cabeçudos? Os painéis fotovoltaicos no Monte de St. Catarina? O abate d’Acácia do Jorge? O crescimento exponencial das despesas com as festas municipais?
O Opinião Pública teve zero a ver com tudo isso. Nada mau para um jornal/rádio/televisão que se quer apresentar como marca de referência no jornalismo local. Fosse pelo Opinião Pública e pelos seus profissionais esforçados, nenhum daqueles dossiers teria alguma vez vindo a lume. Nem muito, nem pouco. Nada.
Sucedeu, porém, aquela velha lei da física: não há bem que para sempre dure.
Começou porque o nosso edil quis reformular o boletim municipal. Compreendo-o: assim como estava não era suficientemente laudatório das glórias camarárias, pecava até por um certo elitismo: ele era o formato de revista, ele eram as cores e grafismos, ele era o objecto circunscrito de análise. E o pior de tudo: ele era a periodicidade demasiado espaçada (adivinharam, a edição semestral não acompanhava a ‘dinâmica’ da autarquia).
E assim nasceu o Efe. A cada dois meses, mais de sessenta mil exemplares leoninamente distribuídos pelos quatro cantos do concelho. Problema: visto que tem formato de jornal, apresenta notícias como um jornal, dispõe de equipa redatorial como um jornal e divulga publicidade (ainda que possa não ser paga) como um jornal, resulta que o Efe se parece mesmo muito com um jornal. E é gratuito.
Para o Opinião Pública – não obstante já há muitos anos a distribuição do seu jornal impresso ser gratuita – o caso é de concorrência desleal manifesta, atenta a competição acirrada pelos leitores e anunciantes num mercado demasiadamente estreito. Tem toda a nossa solidariedade, sabemos bem o que isso é.
O facto é que, achando-se assaz prejudicado, o director do Opinião Pública fez o quê? Anunciou a suspensão temporária, que logo se tornou definitiva, da edição impressa do jornal. Que assim passou a ser exclusivamente digital.
Foi isto no dia 25 de fevereiro de 2026.
E a vida prosseguiu como dantes. Não sei se alguém poderá argumentar com seriedade que o propósito em vista com a suspensão do jornal impresso seria pressionar a câmara a reverter a criação do Efe. É que, chegados aqui, já estamos perante um certo nível de comédia, não concordarão comigo? Porque não lhes pode ter passado pela cabeça que o nosso presidente Mário Passos fosse verter uma lágrima pelo fim de mais um jornal impresso, pode?
Vejamos: menos um jornal impresso é menos um jornal impresso a fazer sombra, nas mesas de café e caixas de correio, ao novo jornal impresso que é feito pelos serviços camarários e é pago pelas nossas contribuições e impostos. Onde a verdade e só a verdade tem cabimento. Não fosse o seu director o próprio presidente da câmara.
Enfim, tornando ao Opinião Pública: talvez fosse o proverbial ajustamento no modelo de negócio. Hoje por hoje, o canal digital pesa cada vez mais na circulação de jornais e revistas, o Opinião Pública não inventou nada. Afinal, o Notícias de Famalicão, que sempre foi exclusivamente digital, é que estava à frente do seu tempo.
Mas onde íamos nós, que me perco no autoelogio? Ah, sim, pois é; o Opinião Pública ajustou o seu modelo de negócio e centrou-se na mancha digital. Tudo muito certo. Pois tinha os leitores fidelíssimos, tinha os anunciantes satisfeitos, e tinha também – do mal o menos – os apoios públicos sob a forma de publicidade institucional local.
Convém apenas notar que estes últimos é a câmara quem os «dá». Ora, isto traz agarrado vantagens e inconvenientes. Como se percebe. Porque quem gere as câmaras municipais tende a achar que lhe cabe o direito de gerir o dinheiro das câmaras municipais com uma certa discricionariedade pessoal, digamos assim.
Trocado por miúdos: fazem-se concursos à medida, pois fazem. Olha a novidade! Ajusta-se a forma ao sapato, de maneira que o pé de Cinderela só a alguns é que toca. O Notícias de Famalicão, por exemplo, tem um tamanco que valha-nos Deus! Só por isso nunca recebeu um tostão furado da câmara, e para quem não soubesse, fica a saber.
Já por outra, a verdade é que o Opinião Pública sempre pareceu desmerecer da importância destes apoios públicos. Dito pelo seu director em crónica dada à estampa em julho de 2024, quando escrevia que a câmara municipal era só mais um dos mais de seiscentos clientes com conta aberta no Opinião Pública. Impressionava. E ainda bem.
De maneira que é assim. Talvez já contassem com a pancada, não sei. Talvez tenham visto, com meses de antecedência, o que por ali vinha de cortes nos apoios públicos, mas torna-se difícil não reparar numa certa mudança de linha editorial nestes meses mais recentes. Assim de repente, o Opinião Pública já noticiava coisas um tanto ingratas para a vereação em exercício. Acho eu.
Com uma polémica em destaque: a que vem opondo a concelhia famalicense do PSD e o nosso presidente da câmara. Longe dos pruridos de outros tempos, aí estava o Opinião Pública a dar de si na contenda, não se coibindo de pôr em evidência os podres de parte a parte. Sim, senhor: tínhamos jornal!
O epílogo de toda esta campanha ocorreu na semana passada quando a câmara municipal anunciou os habituais concursos públicos para compra de espaço de publicidade institucional.
São dois lotes distintos de 105.000€ cada um, com prazo de validade de 20 meses. O lote 1 requer propostas com oferta de “Radio Local + Televisão Digital/App SmartTV + Jornal Impresso”, o lote 2 requer “Rádio Local + Jornal Impresso/Digital”.
Primeira nota: como ter rádio é factor eliminatório em ambos os lotes, o ‘concurso’ está limitado a dois concorrentes locais, o Cidade Hoje e o Opinião Pública.
Segunda nota: como ter jornal impresso também é factor eliminatório em ambos os lotes, o ‘concurso’ fica afinal limitado ao Cidade Hoje.
Ou seja, um dos lotes vai para o Cidade Hoje, que esses não correm o risco de serem mal comportados. O outro ficará deserto por falta de concorrentes. Está mal.
Está mal por muitos motivos, os quais me escusarei a enunciar até porque são evidentes por si mesmos. Mas cumpre-me aqui declarar a minha solidariedade ao Opinião Pública. É nestes momentos de suma traição que nos conhecemos a nós mesmos, e não tenho dúvidas de que o Opinião Pública saberá transformar-se para melhor a partir deste fundo revés.
Antes de mais, queixou-se à ERC (boa sorte com isso, mas é sempre bem-vindo ao clube).
Porém, repare-se: o Opinião Pública lucubrou por anos a fio numa ilusão. A de que a liberdade de opinião se encontrava escurada dentro dos muros paternalistas do nosso espaço público local. Enquanto andou gordinho, o Opinião Pública assistiu impávido à perseguição movida pelo presidente da câmara ao Notícias de Famalicão, seu parceiro de labor, fosse pela discriminação na atribuição de publicidade institucional, fosse pela instauração de processos judiciais, na justiça e na ERC, por suposta difamação. Nunca provados, a câmara municipal perdeu-os a todos.
Quem pagou esses processos, o presidente da câmara ou a autarquia? A câmara não diz (tão transparentes eles são). Também o Opinião Pública nunca perguntou!
Nunca ouvimos da parte do Opinião Pública, explícita ou encapotadamente, qualquer arremedo de solidariedade para com a nossa causa. Pelo contrário, o Opinião Pública moveu ele próprio um processo contra o Notícias de Famalicão, sabem porquê? Adivinharam, por alegada difamação (a difamação é um crime que anda barato por estes dias). Estavam tristinhos porque nós escrevemos que eles não são espetaculares. Depois passou-lhes, o Opinião Pública desistiu do processo: convirá dizer.
Registamos a ocorrência, não obstante. Quando mais se vem notando que o Opinião Pública, se o deixarmos, não desdenha acomodar-se a um papel de farol da liberdade de imprensa. Agora: que lhes toca a eles!
E então o que é que se tira daqui? Olhem, podiam ter aprendido à nossa custa e era bem mais fácil para todos. Não aconteceu, paciência: terão de aprender por si mesmos. É duro? Deve ser. Mas agora ao menos o Opinião Pública já sabe com o que conta. Só é pena ter sido o último a saber.


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