Entre os livros e os algoritmos

As ferramentas mudam. A vontade de aprender é que continua a fazer toda a diferença.

Comentários

4 min de leitura

Li recentemente uma entrevista de László Krasznahorkai em que lamenta o fim de uma determinada ideia de literatura. Diz que a literatura de hoje se tornou mais fácil, mais acessível, menos exigente. Recorda um tempo em que um livro podia transformar uma vida e em que o leitor fazia um percurso longo, sustentado por uma sólida formação humanística. É uma reflexão séria e compreensível. Mas não me convence por inteiro.

Nunca fui um grande leitor. Não cresci rodeado de bibliotecas nem tive uma formação académica ligada às letras. A minha escola foi outra. Foi a vida, o trabalho, os problemas, as dificuldades económicas e até familiares. Tive de aprender a decidir, a errar e a recomeçar muitas vezes. O conhecimento chegou-me menos pelas páginas dos livros do que pela experiência.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, olho para trás com orgulho. Fiz um percurso profissional exigente, alcancei objetivos que pareciam improváveis e procurei sempre aprender. Nunca me senti diminuído por não ter lido todos os clássicos que os intelectuais consideram indispensáveis. O respeito pela cultura não deve transformar-se numa hierarquia moral entre quem leu muito e quem aprendeu de outra forma.

- Publicidade -

Há um certo elitismo que continua vivo em alguns meios culturais. A ideia de que existe uma única maneira legítima de adquirir conhecimento. Durante séculos foi através dos livros. Hoje essa realidade mudou profundamente. A internet, os cursos online, os documentários, as conferências, os podcasts e, mais recentemente, a inteligência artificial abriram portas que antes estavam fechadas para milhões de pessoas.

Naturalmente, há muito lixo digital. Há desinformação, superficialidade e manipulação. Mas também havia maus livros, panfletos e pseudociência muito antes de existir a internet. O problema nunca foi o suporte. O problema sempre foi a capacidade crítica de quem lê, ouve ou pergunta.

É precisamente aqui que vejo uma oportunidade extraordinária. Pela primeira vez na história, uma pessoa reformada, um operário, um pequeno empresário ou um jovem sem recursos pode conversar durante horas com uma ferramenta de inteligência artificial, fazer perguntas sem sentir vergonha, pedir explicações sucessivas até compreender um tema complexo, comparar opiniões, traduzir textos, analisar documentos ou aprender uma nova competência. Não substitui um professor, mas democratiza o acesso ao conhecimento de uma forma que dificilmente teria sido imaginável há apenas vinte anos.

Muitos intelectuais olham para estas tecnologias com desconfiança. Algumas críticas são legítimas. Existem riscos evidentes, dependência, perda de concentração, respostas erradas ou enviesadas e uma tentação constante de aceitar tudo sem verificar. Mas há também uma resistência que me parece mais emocional do que racional. Sempre que surge uma nova tecnologia, aparece alguém a anunciar o fim da cultura.

A imprensa faria desaparecer o saber oral. A televisão destruiria a leitura. A internet acabaria com os jornais. Agora a inteligência artificial destruirá o pensamento. Talvez seja prudente recordar que a humanidade nunca deixou de pensar por causa das ferramentas que criou. Mudou foi a forma de pensar e de aprender.

Conheço pessoas que leram milhares de livros e pouco fizeram da sua vida. Conheço outras que leram poucos, mas criaram empresas, deram emprego, educaram famílias e resolveram problemas concretos. Não estabeleço uma relação automática entre quantidade de leitura e qualidade humana. A cultura é importante, mas não é um campeonato.

Também não acredito que a literatura esteja condenada. Os grandes livros continuarão a encontrar os seus leitores, como sempre aconteceu. O que terminou talvez tenha sido o monopólio cultural de uma elite que definia o que era conhecimento legítimo. Hoje convivem várias formas de aprender. Algumas serão superficiais. Outras revelar-se-ão extraordinariamente eficazes.

A inteligência artificial, por exemplo, não me afastou da curiosidade. Fez exatamente o contrário. Levou-me a fazer mais perguntas do que alguma vez fiz. A procurar contextos históricos, compreender conceitos científicos, revisitar autores que nunca tinha lido e escrever textos que, sozinho, talvez nunca tivesse tido coragem de desenvolver.

Não vejo nisso uma derrota da inteligência humana. Vejo uma ampliação das suas possibilidades.

Talvez a verdadeira divisão já não seja entre quem lê livros difíceis e quem utiliza novas tecnologias. A diferença está entre quem mantém a curiosidade viva e quem acredita que o conhecimento ficou definitivamente fechado na geração em que cresceu.

As ferramentas mudam. A vontade de aprender é que continua a fazer toda a diferença. E essa não pertence nem aos livros nem aos algoritmos. Pertence às pessoas.

Comentários

Notícia anterior

Mário Passos convida presidente da Junta de Castelões para avançar em Gavião em 2029

Notícia seguinte

Carlos Carvalhal é o novo treinador do FC Famalicão

- Publicidade -
O conteúdo de Notícias de Famalicão está protegido.