Alcançar o quinto lugar na I Liga Portuguesa, com fortes possibilidades de uma qualificação europeia, é um feito tremendo do Futebol Clube de Famalicão, clube que representei como atleta das camadas jovens, no tempo em que não havia campo para treinar, e que acompanhei diariamente, por razões profissionais, nos primórdios da minha vida de jornalista.
E foi nessa vida que conheci o joanense Custódio Ribeiro, um verdadeiro homem do futebol associativo de outros tempos, um quadro da Têxtil Manuel Gonçalves, que ainda está cá de boa saúde, que nos seus tempos livres se dedicava ao futebol, ora como dirigente do Grupo Desportivo de Joane, da Associação de Futebol de Braga e, nos tempos difíceis, no FC Famalicão.
O que é que Custódio Ribeiro tem a ver com o Futebol Clube de Famalicão atual e altamente profissionalizado dos milhões do multimilionário israelita Idan Ofer e do fundo Quantum Pacific?
É que o presidente da SAD do FC Famalicão, Miguel Ribeiro, é filho de Custódio Ribeiro e teve no pai a inspiração que o transformou num dirigente profissional e competente no futebol atual. Está aí um dos segredos do seu sucesso. Fez o tirocínio em clubes como o Rio Ave e o Marítimo, onde deixou marca, antes de, em 2018, assumir um projeto empresarial de sucesso, que há muitas décadas era sonhado por muitos famalicenses. Lembro-me agora do saudoso Domingos Lopes de Castro, o primeiro dirigente do clube de quem ouvi a palavra “clube-empresa”, em meados da década de 1980.
Quis o destino das coincidências em que o futebol é fértil, que a melhor classificação de sempre do FC Famalicão no principal campeonato português tenha acontecido em 2026, exatamente 80 anos após a sua primeira subida à I Divisão Nacional, que disputou em 1946-1947.
Essa foi a primeira de um total de 13 presenças entre os grandes do futebol português. Poderiam ter sido muitas mais presenças, ou não fosse Vila Nova de Famalicão, desde sempre, um território suficientemente forte e inovador em muitos setores, a começar pela pujança da sua economia e pela capacidade empreendedora dos famalicenses.
O sucesso do FC Famalicão, agora sem a força afetiva da gestão associativa, mas com a força das decisões racionais de gestão desportiva, resulta de uma estratégia bem definida e das condições para implementar essa estratégia, em que o presidente da SAD, Miguel Ribeiro, é peça crucial. Nesta equação, infelizmente, nem todos os atores se têm mostrado capazes e competentes.
Muito provavelmente, na próxima temporada, que começará dentro de algumas semanas, o FC Famalicão estará, pela primeira vez na sua história, na Liga Conferência, uma das três provas da UEFA, e não terá condições no estádio municipal para realizar os seus jogos. Aqui, temos de convocar a responsabilidade da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, que há uma década anda a prometer um estádio moderno e funcional, mas que nunca mais sai do papel.
Em dez anos, a Câmara de Famalicão já preparou dois projetos para o seu estádio, mas não executou nenhum. O primeiro a falhar foi o ex-presidente Paulo Cunha, que em 2018 apresentou um projeto de reabilitação muito interessante, de baixo custo, que em minha opinião deveria ser recuperado e ajustado.
Agora falha Mário Passos com as suas megalomanias: um estádio com prédios para escritórios e ainda um multiusos para grandes eventos. Tudo isto em terrenos públicos e numa zona escolar e desportiva, que já está fortemente pressionada. Uma megalomania disparatada.
Por isso mesmo, Mário Passos, enredado no seu “plano B” para o novo estádio municipal de muitos milhões, que nenhuma empresa quis construir, deixando o concurso público deserto, não se associou à festa dos famalicenses na noite de sábado e só reagiu na manhã deste domingo, nas suas nas redes sociais, com a frieza e a distância de quem está a falhar.
Depois de muito ter matutado durante a noite, escreveu assim: “O Futebol Clube de Famalicão fechou ontem mais uma época do campeonato nacional, com a melhor classificação de sempre na sua história! Parabéns a todos os que tornaram possível este feito, um registo que eleva e projeta ainda mais o nome e a marca de Vila Nova de Famalicão.” E mais não disse o edil.


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