A reunião do executivo municipal de Vila Nova de Famalicão, realizada ontem, 21 de maio, acendeu o rastilho para uma intensa troca de acusações entre as principais forças políticas locais.
O Partido Socialista (PS) e a coligação maioritária PSD/CDS-PP emitiram comunicados inflamados com visões opostas sobre os acontecimentos, num debate a que se juntou também a Iniciativa Liberal (IL) através das redes sociais, traçando um retrato marcado por forte crispação e ausências de parte a parte.
PS ACUSA MAIORIA DE “DESRESPEITO INSTITUCIONAL”
O Partido Socialista abriu as hostilidades através de um comunicado onde acusa frontalmente a coligação PSD/CDS-PP de negligenciar as reuniões de Câmara. Os vereadores da oposição apontam um clima de tensão e criticam a postura do executivo.
Os vereadores socialistas criticam o presidente da Câmara Mário Passos que “abandonou a sessão antes do fim”, declarando que não estava “preparado para perder tanto tempo na reunião”.
O PS considera que a coligação PSD-CDS contorna as regras democráticas ao demonstrar uma recorrente ausência de respostas às questões levantadas. O PS critica o ambiente na última reunião camarária, na qual o vereador Hélder Pereira (CDS) elevou o tom de voz e bateu com a mão na mesa durante o debate.
Eduardo Oliveira, presidente da Comissão Política do PS, em comunicado, classificou a atitude da maioria como uma “postura de desrespeito institucional e falta de transparência”.
O líder socialista defendeu o fim do que apelidou de postura de “quero, posso e mando” , exigindo a implementação da gravação e transmissão das reuniões – uma medida que foi apresentada pelo PS e rejeitada pela coligação “para evitar que os famalicenses saibam o que realmente se passa nas sessões” [ver notícia: PS acusa Câmara de impedir escrutínio dos cidadãos à atividade dos eleitos locais].
COLIGAÇÃO REAGE: “FICÇÃO E CALÚNIA”
A resposta da coligação PSD/CDS-PP não se fez esperar. Numa nota de imprensa subscrita por Paulo Reis (PSD) e Hélder Pereira (CDS-PP) , a maioria manifestou o seu “total repúdio” pelas acusações, acusando o PS de recorrer à “ficção, e até à calúnia, para tentar enganar os famalicenses” devido à sua própria “impreparação e ausência de ideias”.
A coligação argumenta que a tensão existente nas reuniões decorre do facto de os vereadores do PS “desconfiarem de tudo e de todos em permanência” , incluindo técnicos municipais, empresas externas e concursos públicos legítimos.
Para a liderança do PSD e do CDS, a acusação de que o presidente da Câmara “abandonou” a reunião é considerada “totalmente inadmissível” e uma “falsidade”. A coligação PSD-CDS defende que Mário Passos “ausentou-se justificadamente perto do fim da sessão”, para marcar presença num compromisso assumido com o Agrupamento de Escolas Padre Benjamim Salgado.
A nota da coligação lamenta a conduta do PS, que acusa de fazer política apenas para “gerar conteúdos para alimentar as suas redes sociais” , criticando ainda o facto de Eduardo Oliveira ter promovido “ruído” sobre o assunto apesar de nem sequer ter estado presente na referida reunião.
INICIATIVA LIBERAL IRONIZA “CAMPEONATO DE GRITOS”
À margem da guerra de comunicados oficiais, Paulo Ricardo Lopes, líder da Iniciativa Liberal (IL) em Famalicão, recorreu às redes sociais para partilhar um relato minucioso e descontraído da sessão a que assistiu presencialmente — motivado, segundo o próprio, pelo facto de as reuniões continuarem a não ser transmitidas publicamente.
O dirigente da IL confirmou o ambiente de crispação, ironizando que os vereadores Ivo Sá Machado (PS) e Hélder Pereira (CDS) “disputaram o campeonato de quem grita mais alto”. Paulo Ricardo Lopes confirmou também que Mário Passos saiu mais cedo para um evento na vila de Joane, criticando o cenário de deixar a reunião com a “cadeira vazia”.
A publicação do líder da IL acabou por expor várias movimentações e faltas em ambas as bancadas que os comunicados partidários omitiram [ver aqui].
Na bancada do PSD, registou-se a ausência de dois vereadores titulares (o vice-presidente Pedro Oliveira e Susana Pereira), que foram substituídos pelos nomes seguintes da lista partidária. Na bancada do PS, confirmou-se a ausência do líder da concelhia, Eduardo Oliveira. Segundo a leitura do líder da IL, esta falta acabou por dar espaço para que Cláudia Vieira assumisse o rumo dos trabalhos, destacando que a vereadora “merece mais protagonismo”.
Entre as propostas que geraram mais discussão, estiveram as derrapagens de 3,5 milhões em quatro obras: no Centro de Atletismo, no Centro de Saúde de Famalicão, na Escola Secundária de Joane e na Escola Senador Sousa Fernandes [ver notícia Mário Passos aprova derrapagens de 3,5 milhões em quatro obras de Famalicão].
Refira-se que além das críticas feitas pelo PS, que votou contra (o vereador do Chega absteve-se na votação), este assunto também mereceu críticas da Iniciativa Liberal [ver notícia Iniciativa Liberal “preocupada com derrapagem de 3,5 milhões” em obras municipais de Famalicão].
Outra proposta do executivo liderado por Mário Passos critica pelo PS é a construção de um estacionamento estacionamento subterrâneo. O PS contesta o gasto e quer trocar projeto de 40 lugares por “silo-auto” com mais de 200 vagas com os mesmos 2,7 milhões de euros previstos pela coligação PSD-CDS.
O xadrez político em Vila Nova de Famalicão promete continuar aquecido, permanecendo a transmissão e a transparência do funcionamento das reuniões de Câmara no centro da discórdia entre o executivo e as forças da oposição.
MÁRIO PASSOS TAMBÉM REAGIU
Em comunicado, o presidente da Câmara repudia as recentes declarações dos vereadores do PS em que acusam o executivo municipal de “negligenciar as reuniões de Câmara e de promover um clima de tensão e falta de abertura democrática”.
Mário Passos considera “uma enorme falta de respeito institucional” a acusação de que “abandonou” a reunião e condena “a total e premeditada descontextualização daquilo que realmente aconteceu”. O autarca refere que “se ausentou na reta final da reunião”, mas sublinha que antes pediu a compreensão de todos e explicou a razão da ausência.
Mário Passos lamenta, por isso, a “postura de má-fé” dos vereadores do PS e vê também como “incompreensível” a acusação sobre a “recorrente ausência de respostas às questões levantadas pelo PS”.


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