A diferença faz-se nas escolhas: técnicos, mercado e dignidade do trabalho.
Escrevo estas linhas na dupla condição de português e de gestor de uma equipa técnica na Holanda.
Vivo diariamente um paradoxo curioso: num país, a dificuldade é encontrar técnicos suficientes para tantas oportunidades; no outro, é encontrar oportunidades dignas para tantos técnicos qualificados.
A Holanda enfrenta há vários anos uma escassez estrutural de profissionais técnicos. Dados do Centraal Bureau voor de Statistiek mostram níveis elevados e persistentes de vagas por preencher nas áreas de engenharia, manutenção industrial, energia, construção e tecnologias de informação.
Relatórios do UWV classificam repetidamente várias profissões técnicas como “profissões em escassez”, sobretudo em engenharia eléctrica, mecânica, mecatrónica e instalação técnica.
Em Portugal, os números do Instituto Nacional de Estatística e do Instituto do Emprego e Formação Profissional revelam um cenário diferente: existe qualificação, existe formação, existe talento – mas nem sempre existem condições compatíveis com essa competência.
Estudos europeus do CEDEFOP têm demonstrado que países com forte ligação entre ensino profissional e empresas, como a Holanda, apresentam níveis de empregabilidade técnica mais robustos e transições mais rápidas para o mercado de trabalho. Em Portugal, apesar dos progressos evidentes, continua a verificar-se um desfasamento entre a formação e a absorção qualificada pelo tecido empresarial.
A diferença começa na forma como cada país encara o ensino técnico. A Holanda investe de forma consistente no ensino profissional dual (MBO), integrando os alunos em contexto real de trabalho desde cedo. O técnico não é visto como “plano B”.
É uma escolha sólida, respeitada e bem remunerada. O investimento público e privado em formação técnica está alinhado com as necessidades da economia.
Em Portugal, durante décadas, a via académica tradicional foi socialmente promovida como a opção “nobre”, relegando o ensino técnico para segundo plano.
Hoje temos excelentes escolas profissionais e bons profissionais, mas o reconhecimento salarial e contratual continua, muitas vezes, aquém do mérito. O resultado é conhecido: precariedade, vínculos frágeis, progressões limitadas e uma cultura empresarial que ainda olha para o técnico como custo e não como pilar estratégico.
Como gestor de uma equipa técnica na Holanda, a minha maior dificuldade não é avaliar competências, é conseguir fechar contratos, realmente contratar com compromisso. O mercado é agressivo. E um bom técnico recebe várias propostas em simultâneo.
As grandes diferenças fazem-se notar.
Existe uma séria e valorizada negociação salarial, formação paga, dias adicionais de férias, horários flexíveis. As empresas disputam talento. O equilíbrio entre vida pessoal e profissional é levado a sério. A estabilidade contratual é regra, não excepção.
Em Portugal, infelizmente, a realidade continua a ser diferente para muitos profissionais: contratos a prazo sucessivos, recibos verdes, estagnação salarial e pouca valorização efectiva. Fala-se muito em retenção de talento, mas investe-se pouco na sua dignificação. E depois estranha-se que o talento emigre.
E é aqui que entra a ironia — aquela ironia desconfortável que raramente se verbaliza. Para mim, neste momento, Portugal estar tao “partido” serve, objectivamente, o meu propósito: continuo a contratar portugueses. Excelentes técnicos, bem formados, resilientes, trabalhadores. Profissionais que, cansados de promessas e de reconhecimento adiado, aceitam desafios internacionais com uma determinação admirável.
Mas não o digo com orgulho — digo-o com um sofrido realismo. O que em Portugal é desperdício, na Holanda é oportunidade. O que lá é desvalorizado, aqui é disputado. O mercado holandês absorve com facilidade aquilo que o mercado português não sabe reter.
A diferença entre os dois países não é talento. Nunca foi. A diferença está na prioridade política, na cultura empresarial e no respeito estrutural pelo trabalho técnico.
A Holanda percebeu que sem técnicos não há transição energética, não há inovação industrial, não há crescimento sustentável. Portugal ainda parece hesitar entre discursos de valorização e práticas de contenção.
Enquanto líder, sei que continuarei a enfrentar a pressão de um mercado agressivo na Holanda, mas também sei que, enquanto Portugal não resolver a equação entre qualificação e dignidade profissional, continuará, ainda que involuntariamente, a alimentar equipas como a minha.
É uma constatação dura e ignorá-la seria extremamente confortável. Mas talvez seja precisamente esse conforto que nos tem custado tanto.
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