A localização privilegiada de Vila Nova de Famalicão tem sido, desde sempre, uma das maiores vantagens competitivas do concelho. E os famalicenses, ao longo dos últimos 150 anos, souberam transformar essa vantagem em progresso, liderando sucessivas vagas de inovação industrial em Portugal.
Desde o início deste século, Famalicão afirma-se como o concelho mais exportador do Norte. Não é obra do acaso. Mesmo sem contabilizar os 19 milhões de pneus que todos os anos saem da fábrica da Continental, em Lousado, que são fundamentais para a liderança exportadora de Famalicão, existe no tecido económico local um ADN empreendedor e exportador que vem de longe – da feira instituída por D. Sancho I, em 1205, e do espírito comercial que moldou a identidade da nossa terra.
Os tempos mudaram. Na sequência da Revolução Industrial, a indústria e os serviços foram substituindo a agricultura ao longo do século XX. A economia transformou-se e já entrámos na era da Inteligência Artificial. Neste processo acelerado, alguns espaços ficaram para trás, à espera de um novo propósito.
Ao mesmo tempo, surgem também ideias profundamente erradas para o futuro da cidade. Uma delas seria a construção de um pavilhão multiusos encostado ao Estádio Municipal, sacrificando áreas dedicadas ao desporto escolar e agravando a confusão urbanística numa zona da cidade que os nossos antepassados reservaram para o desporto, a educação e o lazer.
Chegou a hora de pensar e decidir. Chegou a hora de parar de destruir para fazer de novo.
Ainda bem que o concurso público internacional lançado pela Câmara de Mário Passos ficou deserto. A ausência de construtoras interessadas num estádio municipal com um pavilhão multiusos deve ser encarada como uma oportunidade para repensar o caminho. Porque, a poucas centenas de metros da zona escolar e desportiva, junto à estação ferroviária, temos um grande imóvel parado no tempo, à espera de um novo futuro: a antiga fábrica de relógios “A Boa Reguladora”.
Fundada no Porto em 1892 e instalada em Famalicão quatro anos depois, “A Boa Reguladora” não é apenas um conjunto de naves industriais. É o berço da relojoaria mecânica portuguesa e um símbolo incontornável da identidade famalicense.
Perante o avançado estado de degradação deste património histórico, torna-se evidente que a sua salvaguarda exige uma decisão política corajosa: a aquisição do imóvel pela Câmara Municipal e a sua transformação num grande espaço multiusos. Aqui poderia nascer, finalmente, o pavilhão multiusos que Famalicão há décadas reclama – e que tanta falta faz para acolher eventos de grande dimensão. Com a vantagem de permitir um projeto ambicioso, versátil e verdadeiramente estruturante, com espaços diferentes para diversas funcionalidades.
O edifício poderia ser reabilitado com respeito pela sua traça original, convertendo-se numa infraestrutura de excelência e capaz de projetar Famalicão para outro patamar.
A compra da antiga fábrica pela autarquia e a sua transformação num polo de eventos seriam um grande investimento estratégico na regeneração urbana da zona ocidental da cidade e na preservação da nossa memória coletiva. Assumindo a posse do edifício, a Câmara Municipal de Famalicão impediria que este património se perca para a especulação imobiliária ou para a ruína definitiva, garantindo que o espaço iria permanecer ao serviço de todos.
Este passo seria o alicerce necessário para uma intervenção planeada que respeite a traça arquitetónica original, transformando um imóvel gigantesco num motor de dinamismo e inovação para a zona da estação ferroviária e arredores.
Uma vez integrado na esfera pública municipal, o edifício poderia ser reabilitado com respeito pela sua traça original, convertendo-se numa infraestrutura de excelência – moderna, funcional e capaz de projetar Famalicão para outro patamar. As amplas naves da Reguladora oferecem condições únicas para acolher concertos de grande escala, congressos internacionais, feiras empresariais, eventos desportivos, um museu da indústria interativo, etc.
Reabilitar o espaço onde nasceram os icónicos relógios de parede e de bolso seria criar um diálogo vivo entre o passado operário e a modernidade cultural.
Esta polivalência reforçaria a competitividade do concelho, atraindo visitantes, investimento e dinamizando o comércio e os serviços locais. Com um centro de eventos desta dimensão, Famalicão entraria definitivamente no radar dos grandes eventos nacionais e internacionais.

Transformar as instalações da antiga fábrica da Reguladora num centro multiusos seria estratégico para a cultura, para a economia, para o turismo industrial e para a regeneração urbana da cidade de Famalicão.
Reabilitar o espaço onde nasceram os icónicos relógios de parede e de bolso seria criar um diálogo vivo entre o passado operário e a modernidade cultural. Seria devolver à cidade um património que lhe pertence por direito histórico e garantir que as futuras gerações continuariam a orgulhar-se da herança que marcou o tempo da nossa terra.
Chegou a hora de pensar e decidir. Chegou a hora de parar de destruir para fazer de novo. Chegou a hora de transformar, readaptar e projetar o futuro. Com coragem política e com amor por Vila Nova de Famalicão.
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