Judas não morreu há dois mil anos.
Continua vivo. Não nas páginas do Evangelho, mas nos corredores do poder, nas salas onde se decidem guerras, nos mercados onde o lucro pesa mais do que a dignidade humana.
A história conta-nos que Judas Iscariotes traiu Jesus por trinta moedas de prata. Durante séculos repetimos esse número quase como uma curiosidade histórica. Trinta moedas. O preço de uma traição. O valor de uma consciência vendida.
Mas talvez a pergunta mais inquietante seja esta: quanto vale hoje uma traição?
O mundo moderno já não usa moedas de prata. Hoje as moedas chamam-se contratos milionários, interesses geopolíticos, controlo de recursos naturais, influência económica. Mudaram os nomes, mudaram as cifras, mas a lógica permanece inquietantemente semelhante: quando o poder e o dinheiro falam mais alto, a verdade e a justiça tornam-se facilmente negociáveis.
Enquanto nos preparamos para celebrar a Páscoa, olhamos para a cruz como símbolo de fé. Mas, fora das igrejas, o mundo continua a repetir a velha história da traição.
Comecemos pelas mais discretas, quase invisíveis. A traição da confiança entre amigos. A quebra da lealdade dentro das famílias. A palavra dada que não se cumpre. Pequenas escolhas que, somadas, vão construindo uma cultura onde a fidelidade e a integridade parecem perder valor.
Na verdade, as traições não acontecem apenas nos grandes palcos da política ou da economia mundial. Também se insinuam no quotidiano das nossas vidas. Traímos quando viramos o rosto ao sofrimento do outro, quando ignoramos a injustiça por conveniência, quando o silêncio se torna mais confortável do que a verdade.
Mas a traição também se manifesta em escala maior.
Vemo-la nas guerras que devastam cidades inteiras enquanto líderes discutem estratégias e equilíbrios de poder. Vemo-la quando a vida humana é reduzida a números em relatórios ou a imagens breves nos noticiários da noite. Vemo-la quando interesses económicos determinam o destino de povos inteiros.
Não faltam discursos sobre liberdade, democracia e direitos humanos. Mas, demasiadas vezes, essas palavras soam vazias quando confrontadas com a realidade de milhões de pessoas que vivem entre conflitos, pobreza e injustiça.
Há traições que se fazem com assinaturas em tratados e contratos. Outras fazem-se com silêncio. O silêncio de quem sabe e não fala. O silêncio de quem vê e prefere não ver.
Seria confortável acreditar que Judas pertence apenas à história sagrada, como se tivesse sido apenas um episódio isolado, um momento de fraqueza perdido num passado distante. Infelizmente, o mundo de hoje sugere o contrário.
A traição tornou-se mais sofisticada. Já não precisa de um beijo no rosto para entregar alguém. Basta uma decisão tomada longe dos olhos do mundo. Basta um cálculo político. Basta colocar o interesse acima da consciência.
Mas também seria injusto apontar apenas para os poderosos. As grandes traições da história tornam-se possíveis porque existem muitas pequenas traições no quotidiano. Quando nos habituamos à injustiça. Quando aceitamos a mentira como parte normal da vida pública. Quando preferimos a indiferença à responsabilidade.
Talvez seja essa a pergunta mais desconfortável que a Páscoa nos deixa: não apenas porque traiu Judas, mas porque continuamos nós a permitir que a lógica da traição organize o mundo.
Porque, no fundo, Judas não é apenas uma personagem do passado. É uma possibilidade permanente da condição humana.
E sempre que a dignidade humana é trocada por poder, influência ou lucro, as trinta moedas voltam a tilintar na história.
A grande verdade é que Judas não morreu há dois mil anos, porque ainda hoje o seu gesto é uma realidade e constantemente repetido.
____________________
Os artigos de opinião publicados no NOTÍCIAS DE FAMALICÃO são de exclusiva responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a opinião do jornal.


Comentários