Foi já no longínquo 30 de abril de 1916, que a Alemanha adiantou os relógios de 1 hora, como tentativa de minimizar o uso de iluminação artificial, a fim de economizar combustível para o esforço da guerra. Nascia assim a primeira hora de Verão!
George Hudson, entomologista neozelandês, foi o autor da primeira proposta de mudança de hora. Propunha avançar o relógio 2 horas na primavera, e recuar duas horas no outono. A fundamentação tinha por base motivos um pouco egoístas – Hudson só queria mais 2 horas de luz para caçar insetos no verão.
Em “The Waste of Daylight”, panfleto publicado em 1907, por William Willett (bisavô de Chris Martin, vocalista dos Coldplay), afirmava-se que “Enquanto estamos a dormir, o Sol ilumina a terra durante várias horas”, pelo que só sobra “um breve período, quando a luz do dia começa a desaparecer, que podemos aproveitar para lazer”.
A ideia era simplesmente aumentar o tempo em que podemos aproveitar a luz do dia e ao mesmo tempo poupar energia, reduzindo o uso de luz artificial. Apesar de ter apoiantes insignes como Winston Churchill a sugestão acabou rejeitada pelo governo britânico.
Ultrapassadas as curiosidades, a questão que nos colocamos sempre nestas alturas é: “Por que é que a hora muda?”
A hora de verão, traduzida da expressão inglesa “Daylight Savings Time”, como “tempo de poupança de luz do dia”, tornou-se regular entre nós, a partir da década de 1970, alinhando-se com as normas da União Europeia, mudando na primavera e outono desde 1996.
Já todos vivenciamos os efeitos práticos de atrasar e adiantar da hora. Ontem, quem saiu de casa para ir trabalhar por volta das 07:30 levantou-se de noite, com o Sol a pôr-se por volta das 18:30. Em compensação, na próxima segunda-feira, às 07:30 o Sol ainda não nasceu completamente, mas o Sol põe-se só às 19:30. No outono teremos o efeito oposto, com o Sol a nascer e a pôr-se mais cedo.
Assim, o propósito da hora de verão seria o de promover um melhor aproveitamento da luz do dia, levando a uma (eventual) poupança de energia.
Como nos primórdios, o objetivo da mudança é aproveitar a iluminação do sol, mas esta só funciona para países a latitudes médias. Como o eixo de rotação da Terra é inclinado em relação ao plano do Sistema Solar, mais perto do equador a duração do dia muda muito pouco ao longo do ano.
Conforme nos afastamos do equador, a duração do dia aumenta no verão e diminui no inverno, pelo que a mudança realmente maximiza o aproveitamento da luz do dia.
Contudo, conforme nos aproximamos dos polos, a mudança volta a não ser vantajosa. Tome-se como exemplo, a região de Svalbard, na Noruega, com uma latitude de cerca de 80º norte, em que desde o fim de abril e até ao fim de agosto, o Sol nunca se põe, e desde o início de novembro e até meados de fevereiro, o Sol nunca nasce! Adiantar ou atrasar a hora torna-se, assim, inútil.
Só para as latitudes médias, nem demasiado perto do equador, nem demasiado perto dos polos é que a hora de verão significa uma verdadeira “poupança de luz do dia”.
Mas afinal qual o real impacto destas mudanças de hora?
Concluído que a poupança energética não é significativa, teremos então alguma vantagem (excluindo gostos pessoais), em manter a hora de verão?
Vejamos o que se passa a nível fisiológico. Em qualquer país a Hora Civil tende a coincidir com a Hora Solar, relacionada com a posição do sol no céu local.
Sabemos que são 12 horas solares quendo o sol atinge a sua posição mais alta no céu, que se percebe facilmente por não “fazermos sombra”. A razão desta escolha está na dependência humana no ciclo das horas com luz solar, que são de atividade, seguido do período das chamadas “horas escuras” para o repouso.
A fundamentação científica baseia-se nas reações químicas que envolvem o cortisol e a melatonina, duas hormonas que não são exclusivas dos seres humanos. A diminuição da intensidade luminosa percecionada pela retina, desencadeia a produção e libertação de melatonina, diminuindo a capacidade do sistema músculo-esquelético, dos mecanismos de atenção e da resposta cerebral aos estímulos: inicia-se o repouso. Paralelamente, a produção de cortisol atinge o mínimo pela 1h da madrugada. Esta adaptação aos estímulos luminosos desenvolve-se após os primeiros 3 meses de vida. Por outro lado, a produção de melatonina no corpo humano diminui com a idade, que associado ao atraso na libertação da hormona (que aumenta com a idade) produz períodos mais curtos de repouso e retardados na sequência das horas de noite-dia.
Na outra parte do ciclo circadiano, o clarear do dia traz a iluminação à retina. Isto produz o efeito inverso: para além de reduzir a melatonina também despoleta a produção de cortisol, que tem um pico de libertação no início da manhã, iniciando-se o tempo de vigília e da atividade.
Tem sido estudado que a transição de avançar uma hora (em março) tem mais efeito nas pessoas do que a contrária (atrasar a hora) em outubro, sobre diversos parâmetros como: horas na cama, horas de sono, horas de levantar e deitar, eficiência do sono, etc. É, também por isso, que a terminar-se com a mudança horária, dever-se-ia optar pela hora de inverno. Mais fatores contribuem para isso.
Vários estudos debruçam-se sobre o assunto analisando diversos parâmetros – o impacto no consumo de energia, o número de acidentes rodoviários, as perturbações do ciclo circadiano (o nosso relógio biológico), o impacto na economia e até o simples bem-estar da população.
Destes estudos, uns apontam para vantagens em manter a mudança (por exemplo, sair para a escola ainda de noite, no pico do inverno, aumenta a hipótese de atropelamento das crianças), outros mostram vantagens em manter a hora durante todo o ano (o stress da mudança pode ser nocivo para a saúde de pessoas imunodeprimidas ou com doenças de sono) e há outros que afirmam não haver qualquer diferença entre manter ou não a mudança.
No nosso país, o LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia – publicou em 2018, o estudo Análise técnica do impacto da mudança de hora legal na penetração da geração de energia renovável não controlável no consumo em Portugal Continental, onde concluiu que “a análise técnica efetuada ao impacto da alteração do regime de hora legal no consumo de energia em Portugal Continental, suprido pela geração de energia renovável não controlável (VRE) não revelou, em termos médios globais, a existência de benefícios significativos decorrente da alteração do regime de hora legal atualmente vigente”.
A Comissão Permanente da Hora é o órgão consultivo do Governo da República, que “tem por finalidade estudar, propor e fazer cumprir as medidas de natureza científica e regulamentar ligadas ao regime de hora legal e aos problemas da hora científica”.
Em 2018, a propósito de um inquérito online do Parlamento Europeu, esta comissão elaborou um parecer sobre o fim da mudança da hora: “A Hora Legal Portuguesa: O Impacto da Hora de Verão; A Escolha da Hora Legal”, onde conclui que “nenhuma das hipóteses sem Hora de Verão é uma boa solução para o país, sendo que manter permanentemente a hora de verão, a pior delas (algo semelhante ao que aconteceu entre 1992 e 1996, durante o governo de Cavaco Silva). Recordem-se que nessa altura, no pico do inverno, o Sol nascia por volta das 9h00. A justificação dada é que, embora pequena, “existe poupança de energia e as perturbações do sono provocadas pela mudança para a hora de verão são mínimas”.
No entanto, em 2021, um conjunto de peritos assinou a Declaração de Barcelona sobre Políticas do Tempo, sustentando que se deve acabar com a mudança pois esta “não tem efeitos significativos na poupança energética, melhora a saúde, a economia, a segurança e o meio ambiente”.
A União Europeia acredita que até ao final do ano será possível uma solução coordenada para a mudança da hora. Lançará um estudo para apoiar este processo de decisão. Saliente-se que para além da decisão final ter-se-á de definir se os Estados-membros decidem querer manter permanentemente o horário de verão ou o horário de inverno. Imaginem o risco de países vizinhos fazerem escolhas opostas: por exemplo, se Portugal escolher o horário de Inverno, e Espanha o de verão, ficarão a duas horas de diferença!
Mas então, ganhamos alguma coisa com a mudança? Infelizmente, a resposta parece ser … “nim”!
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