Talvez o leitor não saiba – nem terá, naturalmente, de o saber –, mas há cerca de 20 anos deixei a cidade do Porto, onde nasci e vivi grande parte da minha vida adulta, para me fixar em Requião, terra à qual estou ligada por laços de sangue e também de afeto.
Para essa decisão contribuiu, em grande medida, o “genius loci” da freguesia, esse espírito singular do lugar que sempre exerceu sobre mim um forte fascínio. O meu pai, embora tenha vivido toda a sua vida de casado na Invicta, nunca perdeu a ligação a Requião, mantendo aqui uma presença regular. Fazia questão de passar fins de semana e férias com os filhos na Quinta do Forno, herdada dos meus avós, preservando assim um vínculo afetivo que atravessava gerações.
Quem hoje passa por Requião dificilmente imagina que esta tranquila freguesia de Vila Nova de Famalicão foi, durante vários séculos, casa de uma comunidade de monges cenobitas. De facto, muito antes de Portugal existir como reino independente, já aqui vivia um pequeno grupo de religiosos que marcou profundamente a nossa história local.
Talvez a paisagem ajude a perceber essa escolha – que, curiosamente, há cerca de 20 anos, também foi a minha. Envolvida pelos montes de Santa Cristina e das Eiras, Requião conserva ainda hoje um ambiente rural e verde que convida à tranquilidade, longe do frenesim das cidades. Não será por acaso que o próprio nome da freguesia parece derivar do termo latino “requies”, que significa descanso ou repouso, facto que vai ao encontro das narrativas da literatura histórico-corográfica de séculos anteriores.
Foi precisamente aqui, muito antes da fundação de Portugal, quando o território era ainda governado pelos reis da Galécia e mais tarde pelos condes portucalenses, que se estabeleceu uma pequena comunidade monástica – não no sentido de isolamento eremítico frequentemente associado às comunidades monásticas, mas enquanto vida religiosa em comunidade.
Tudo indica que as suas origens remontam à tradição monástica visigótico-frutuosiana, que conheceu grande desenvolvimento no noroeste peninsular entre os séculos VI e VII. Ao contrário da imagem que muitas vezes temos dos monges como homens isolados do mundo, estas pequenas comunidades de cenobitas viviam próximas das populações, assegurando a celebração do culto, a evangelização e o apoio espiritual às aldeias da região.

Quem hoje passa por Requião dificilmente imagina que esta tranquila freguesia de Vila Nova de Famalicão foi, durante vários séculos, casa de uma comunidade de monges cenobitas. Ainda hoje, entre as gerações mais velhas, o lugar onde se ergue a igreja continua a ser conhecido como o “lugar do Mosteiro”.
A primeira referência documental ao mosteiro surge no final do século XI. Depois da restauração da Diocese de Braga, o bispo D. Pedro mandou elaborar um importante inventário das igrejas e mosteiros do território bracarense. Entre as instituições então registadas encontra-se o pequeno mosteiro de Requião, dedicado a São Cristóvão – invocação que apenas mais tarde seria substituída por São Silvestre. Esta referência confirma que o mosteiro já existia nessa época e integrava a antiga Terra de Vermoim, uma das circunscrições medievais que antecederam o atual concelho de Vila Nova de Famalicão.
Como muitos outros mosteiros da região, a comunidade de Requião acabaria por adotar a Regra de Santo Agostinho. Essa decisão foi determinante para a sua sobrevivência. Durante os séculos XI e XII, numerosas comunidades de tradição mais antiga desapareceram por não acompanharem as reformas religiosas que então se impunham na Europa. Mosteiros vizinhos, como os de Lemenhe, Landim (Areias) ou Lagoa, acabaram por ser extintos, enquanto Requião conseguiu adaptar-se às novas exigências da Igreja.
Apesar disso, nunca foi uma grande casa monástica, à semelhança de Tibães ou Santa Cruz de Coimbra. Pelo contrário, tudo indica que seria uma comunidade reduzida. Um documento de 1336 refere apenas quatro religiosos: o prior e três cónegos. Viviam em comum, seguindo a Regra de Santo Agostinho, dividindo o seu tempo entre a oração, a administração dos bens do mosteiro e a assistência religiosa às populações.
Era precisamente esta forte ligação às comunidades locais aquilo que distinguia os cónegos regrantes de Santo Agostinho de outras ordens monásticas. Celebravam os sacramentos, asseguravam o serviço paroquial e deslocavam-se frequentemente a outras igrejas dependentes do mosteiro. Sabemos, por exemplo, que um dos religiosos de Requião, Julião Martins, foi apresentado como reitor da igreja de Santa Marinha de Ferreiró, perto de Vila do Conde. Também um prior do mosteiro, Julião Peres, participou em sínodos convocados pelo arcebispo de Braga, revelando que esta pequena comunidade estava plenamente integrada na vida religiosa da diocese.
Embora modesto, o mosteiro possuía terras, rendas e privilégios que despertavam a cobiça de alguns senhores locais. Sabemos que, durante o reinado de D. Dinis, os seus responsáveis apresentaram queixas contra cavaleiros e escudeiros que procuravam impor direitos abusivos sobre o couto monástico ou apropriar-se dos seus rendimentos. O rei acabou por ordenar às suas justiças que protegessem os direitos do mosteiro, testemunhando a importância que estas pequenas instituições continuavam a ter na organização do território medieval.
Hoje, mais de sete séculos passados, quase nada resta visível desse antigo convento. A própria igreja sofreu profundas transformações ao longo dos tempos. Contudo, alguns elementos arquitetónicos permitem ainda adivinhar esse passado monástico. A passagem existente junto da torre sineira, que ligava a igreja às antigas dependências conventuais, recorda-nos que este foi, durante várias centúrias, um lugar onde uma pequena comunidade de monges viveu, rezou e serviu as populações de Requião.
São sinais discretos de um passado quase esquecido, que se foi fixando também na memória oral da comunidade. Ainda hoje, entre as gerações mais velhas, o lugar onde se ergue a igreja continua a ser conhecido como o “lugar do Mosteiro”. Por isso – e por muito mais – importa conhecer a história e a identidade, pois só através do conhecimento do passado se formam cidadãos mais conscientes, capazes de compreender melhor o presente e de olhar o futuro com maior clareza e sentido crítico.
Na próxima crónica acompanharemos o declínio desta comunidade religiosa, as razões que conduziram ao desaparecimento do mosteiro no século XV e a forma como a antiga igreja conventual passou, em definitivo, a desempenhar funções de igreja paroquial, integrada nas chamadas comendas novas da Ordem de Cristo, inaugurando assim uma nova etapa da sua longa história.


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