“Sejam realistas, exijam o impossível.”
Slogan do Maio 68 – Paris
Nos versos de Homero, na Ilíada, conta-se a história do longo, muito longo, mesmo, mesmo muito longo cerco à cidade de Troia (não a de Grândola, mas sim da Anatólia, na Turquia) pelos gregos. Dá-se o caso que, após este longo, muito longo, cerco, os gregos chegaram à conclusão de que, pelo método clássico, a coisa não ia lá e ocorreu-lhes simular uma retirada, deixando, para trás, uma “oferta”.
Esta oferta, um Cavalo enorme feito em madeira, trazia o seu bucho recheado de tropas gregas. Os troianos, anjinhos, cheios de vaidade e soberba, não foram de meias medidas, toca a pegar no cavalo e enfiá-lo dentro das muralhas. Já podem adivinhar o resto da história… é isso, os troianos perderam a guerra e, pelo meio, Aquiles ficou com problemas no tendão (cá está aquela cena do tendão de Aquiles).
Muito mais tarde, a Kinder, inventou o ovo de chocolate com o mesmo conceito e com o mesmo propósito, entrar nas nossas casas com uma amostra de chocolate normalíssimo, mas pelo qual pagas uma fortuna.
Considerações à parte, o que é que a gestão autárquica do nosso burgo [não confundir com (ham)búrguer] tem a ver com isto?
Na minha opinião, tudo. Mas o leitor tirará as suas conclusões, após a leitura da minha singela argumentação.
Como é que desmantelas a Reserva Ecológica Nacional (REN)?
Enfiando 80 hectares de painéis fotovoltaicos dentro da REN, embrulhados na declaração de relevante interesse “público”.

Como é que resolves a localização da indústria química, poluente e perigosa?
Licenciando os pavilhões industriais dentro de um bairro residencial. Mais cedo, ou mais tarde, quem lá vive vai perceber quem é que está a mais.
Como é que arruínas de uma vez com o comércio tradicional da cidade?
Deixando construir super e hipermercados dentro das muralhas* da cidade, Continente, Lidl, Auchan em tamanho XXL… Nota: os limites das nossas cidades são (hoje) definidos pelas suas circulares rodoviárias. Dentro e fora da circular, corresponde ao centro versus periferia.
* Entenda-se muralha como a variante EN14.

Só mais um exemplo, como é que aniquilas definitivamente a já, muito condicionada, imprensa local? Esta não é difícil…
O edil edita o seu próprio jornal. Distribuição gratuita e aos magotes, o Efe faz o seu papel. E qual é? Orwell postulou a fórmula que nos abre a mente do criador: controlar o passado, para controlar o futuro e controlar o presente, para controlar o passado. Só tens de dominar a narrativa.

Depois temos o princípio invertido do Cavalo de Troia. Para manter os bons negócios do imobiliário, o centro da cidade passou a ter uma oferta quase exclusiva nos segmentos alto e médio alto.
O município podia contrariar esta tendência, investindo numa oferta pública para os segmentos com rendimentos médios, ou seja, incapazes de pagar os valores obscenos do mercado.
Se queremos manter uma cidade viva, trabalhar uma oferta de arrendamento público acessível aos jovens casais, no início do seu projeto de vida, é uma questão estratégica para a sustentabilidade de Famalicão. A cidade precisa de várias camadas socioeconómicas, para se manter funcional.
Mas ao contrário disso, a nova oferta pública é sempre fora do centro. Consequentemente, Famalicão gentrifica-se. Os condomínios, mais ou menos, fechados, passaram a ser moda. Numa terra onde a principal ameaça é o preconceito e não o crime.
Com tanto caminho para fazer, é uma pena continuarmos a andar em círculos.
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