Há trajetórias políticas que parecem escritas com a pena ferina do nosso Camilo Castelo Branco, o grande escritor de São Miguel de Ceide, que nasceu precisamente em 16 de março de 1825, faz hoje 201 anos.
O caso do percurso do eurodeputado famalicense Paulo Cunha, outrora figura ascendente do PSD destinada a “altos voos” na política nacional, é exemplar. Por estes dias, o ex-autarca famalicense lambe as feridas provocadas por uma derrota nas eleições para a comissão política distrital de Braga, agora liderada pelo barcelense Carlos Eduardo Reis, que hoje assume o cargo.
Foi uma derrota para a qual também contribuíram cerca de 40% dos militantes do PSD de Famalicão que foram às urnas, nas últimas eleições internas. E ao ter perdido a distrital do PSD, Paulo Cunha deixa de ocupar cargos eletivos no partido, pela primeira vez, em mais de 20 anos de atividade política.
Durante anos, o agora eurodeputado foi apresentado como o herdeiro natural de uma linhagem política sólida, o sucessor predestinado de Armindo Costa (autarca entre 2001 e 2013), que o lançou e lhe abriu portas do poder, primeiro no PSD e, depois, na Câmara Municipal de Famalicão. Mas, como tantas vezes sucede na política e na literatura, o discípulo e o mestre acabaram incompatibilizados e distantes, e o enredo começou a ganhar sombras.
A presidência da Câmara de Vila Nova de Famalicão, entre 2013 e 2021, foi o palco onde Paulo Cunha construiu a sua imagem de gestor dinâmico, próximo das empresas, orgulhoso do projeto “Famalicão Made In”, e determinado em redesenhar o centro urbano com obras que dividiram opiniões. E que continuam a dividir.
A queda de um anjo, na literatura ou na política, nunca é apenas um acidente: é sempre o resultado de um desfasamento entre a imagem que alguém tem de si e a realidade que o rodeia.
Conhecido pela sua qualidade de bem-falante, afirmou-se como um autarca confiante, metódico, seguro do seu rumo, convencido – talvez demasiado – de que o futuro lhe pertencia por direito natural. A sua ascensão dentro do PSD parecia confirmar essa convicção: liderou a concelhia, comandou a distrital de Braga em dois períodos, tornou‑se conselheiro nacional, cultivando uma oposição cerrada à liderança de Rui Rio, e chegou mesmo a vice‑presidente nacional do partido na primeira equipa de Luís Montenegro. Tudo apontava para um percurso em linha reta rumo ao topo.
Mas é aqui que o paralelismo com a obra camiliana “A Queda de Um Anjo” se torna irresistível. Tal como Calisto Elói, o morgado que Camilo retrata com ironia devastadora, também Paulo Cunha parece ter sido vítima de uma metamorfose política que o afastou das raízes que o sustentavam.
Calisto, ao chegar a Lisboa, abandona a pureza provinciana e deixa‑se seduzir pelos jogos de poder, pelas vaidades, pelos pequenos vícios da corte. Paulo Cunha, ao ganhar influência nacional, viu a sua base local começar a esboroar‑se, como se a distância – física e simbólica – tivesse corroído a relação com a sua própria terra.
As polémicas que envolveram a sua alegada influência na Câmara após deixar o cargo de presidente ao fim de dois mandatos, as notícias sobre o envolvimento em trapalhadas urbanísticas, as derrotas na concelhia do PSD e a erosão do seu prestígio em Famalicão criaram a sensação de que o político outrora incontestável se tornara, de repente, vulnerável.

A derrota na distrital de Braga, que liderava desde 2020, é o capítulo final desta queda. Pela primeira vez em mais de duas décadas, Paulo Cunha não detém qualquer cargo eletivo ou executivo no PSD. O homem que parecia destinado a subir sempre mais um degrau encontra‑se agora numa espécie de limbo político. É um eurodeputado sem base, um político sem território, em resumo, o protagonista de uma história que perdeu o brilho inicial.
Paulo Cunha, que já foi visto como promessa fulgurante, é hoje um exemplo de como o poder, quando tomado como destino inevitável, pode transformar‑se numa armadilha silenciosa.
Tal como Calisto Elói, que termina a obra de Camilo despojado das ilusões que o tinham guiado até Lisboa, também Paulo Cunha enfrenta agora o espelho incómodo das suas escolhas, das alianças que fez e desfez, das batalhas internas que venceu e perdeu. A sua herança política é ambígua: modernizou, aproximou empresas, transformou a cidade – mas também dividiu, polarizou e, no fim, perdeu o apoio que julgava inabalável.
A queda de um anjo, na literatura ou na política, nunca é apenas um acidente: é sempre o resultado de um desfasamento entre a imagem que alguém tem de si e a realidade que o rodeia. Paulo Cunha, que já foi visto como promessa fulgurante, é hoje um exemplo de como o poder, quando tomado como destino inevitável, pode transformar‑se numa armadilha silenciosa. E talvez seja precisamente neste ponto que Camilo, se vivo fosse, encontraria matéria para mais um capítulo da sua ironia implacável.


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