De quem é?

O problema começa quando o apelido pesa mais do que o caráter. Quando um contacto vale mais do que uma competência. Quando a proximidade fala mais alto do que o mérito.

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Há perguntas que atravessam gerações sem nunca terem sido ensinadas.

Não vêm nos livros. Não fazem parte dos programas escolares. Mas vivem nas conversas de café, nas mesas de domingo e nos corredores das instituições.

Quando alguém chega a um lugar importante, assume um cargo ou começa simplesmente a destacar-se, há uma pergunta que costuma surgir antes de todas as outras.

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– De quem é?

Não perguntamos primeiro o que pensa.

Nem o que fez.

Nem o que estudou.

Perguntamos de quem é.

É filho de quem?

É primo de quem?

É sobrinho de quem?

Durante muito tempo, nunca achei estranho.

Cresci a ouvir estas perguntas como quem aprende o nome das ruas da terra onde nasceu. Pareciam-me naturais.

Só mais tarde percebi que não eram apenas perguntas sobre famílias.

Eram, muitas vezes, perguntas sobre poder.

Durante anos, pensei que isto acontecia apenas nas terras pequenas, onde toda a gente se conhece e os apelidos parecem sobreviver mais tempo do que as pessoas.

Enganei-me.

Acontece em todo o lado.

Muito antes de existirem partidos, eleições ou parlamentos, já existiam famílias. Muito antes de qualquer cargo, eleição ou nomeação, todos pertencíamos já a alguém.

O poder não nasceu nas instituições.

Nasceu em casa.

À volta da mesa.

Na confiança.

Na pertença.

A História mudou. As leis mudaram. As instituições fortaleceram-se.

A democracia trouxe regras, concursos, mecanismos de transparência e afirmou um princípio essencial: todos os cidadãos são iguais perante o Estado.

Foi uma conquista extraordinária.

Mas nenhuma lei apaga por decreto hábitos que a natureza humana levou séculos a construir.

Continuamos a confiar primeiro em quem conhecemos.

É assim na política.

É assim nas empresas.

É assim nas associações.

É assim na vida.

Confiar é humano.

Confundir confiança com privilégio já é outra coisa.

É precisamente aí que a democracia é posta à prova.

Não quando existem famílias.

Mas quando as instituições deixam de ser suficientemente fortes para garantir que nenhuma relação pessoal vale mais do que o interesse coletivo.

O problema nunca foi termos apelidos.

O problema começa quando o apelido pesa mais do que o caráter.

Quando um contacto vale mais do que uma competência.

Quando a proximidade fala mais alto do que o mérito.

A família é uma das maiores riquezas de qualquer sociedade.

É nela que aprendemos a confiar, a cuidar, a repartir e a recomeçar.

Mas nenhuma democracia resiste quando a lógica da família substitui a lógica das instituições.

Talvez nunca deixemos de perguntar:

– De quem é?

Essa pergunta faz parte da nossa memória coletiva.

Mas talvez a maturidade democrática comece no dia em que ela deixe de ser a mais importante.

No dia em que um apelido desperte apenas curiosidade.

Nunca uma expectativa.

Porque ninguém escolhe a família onde nasce.

Mas todos respondem pelas escolhas que fazem quando a responsabilidade lhes é confiada.

Nesse dia, a pergunta deixará finalmente de ser:

– De quem é?

E passará a ser apenas:

– Quem é?

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