Percorrer hoje as ruas do centro da cidade de Vila Nova de Famalicão não é apenas difícil – é, em muitos casos, um verdadeiro desafio.
Aquilo que deveria ser um espaço de fruição, encontro e mobilidade simples transformou-se num percurso irregular, confuso e, por vezes, inacessível.
Mais do que uma questão estética ou de gosto, estamos perante um problema de funcionalidade e, sobretudo, de responsabilidade.
Sabemos que foram investidos mais de 10 milhões de euros na reabilitação do centro urbano. Sabemos também que existiram derrapagens, reformulações e decisões difíceis de compreender – veja-se o exemplo do quiosque na Praça D. Maria II, que foi construído e destruído várias vezes.
Perante isto, impõe-se uma pergunta simples: quem responde por estas escolhas?
Quem é responsável pela seleção dos materiais que hoje apresentam desgaste precoce?
Quem garante a qualidade da execução?
E, acima de tudo, quem está a pagar, novamente, a correção dos erros?
É legítimo questionar se é aceitável que, pouco tempo após a conclusão das obras, já se verifiquem passeios com desníveis, lajes partidas ou soltas, zonas intervencionadas que voltam a ser alvo de reparações.
Não se trata de incidentes pontuais, tratam-se de sinais de uma execução que levanta dúvidas e de um controlo que aparenta ter falhado.
Mas o problema não se esgota na qualidade da obra. Estende-se à própria forma como o espaço foi pensado.

O centro da cidade tornou-se, para muitos, um verdadeiro labirinto. Um percurso feito de obstáculos: vasos e “vasinhos”, esplanadas que ocupam o espaço pedonal, carros estacionados por todo o lado, degraus inesperados, plataformas mal integradas.
Para pessoas com mobilidade reduzida, esta realidade não é apenas incómoda, é, frequentemente, uma barreira intransponível. Mas mesmo para quem não enfrenta essas limitações, a experiência é de desorientação e desconforto.
Que modelo de cidade é este que dificulta o simples ato de caminhar?
Não haverá aqui uma inversão preocupante de prioridades? Diria que sim, sem grandes reservas. Hoje temos uma cidade que em vez de ter sido desenhada para as pessoas, são as pessoas que têm de se adaptar à cidade.
Tudo isto conduz a uma questão mais profunda sobre a forma como o investimento público é encarado. Que visão é esta que trata o dinheiro público como se fosse inesgotável? Como se cada erro pudesse ser corrigido sem consequências? Como se a exigência de qualidade fosse um detalhe secundário?
Mais do que construir, é preciso governar bem, e com responsabilidade.
Vila Nova de Famalicão está, sem dúvida, num momento de transformação. Mas o desenvolvimento urbano não pode viver apenas da obra visível, da fotografia inaugurativa ou da promessa política. Tem de ser sustentável, equilibrado e centrado nas pessoas, nas suas rotinas, nas suas dificuldades, na sua qualidade de vida.
Porque, no fim, a pergunta que importa fazer não é quanto se constrói, mas antes quem e para quem se constrói.


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