Deixem a poesia estar na rua

No dia em que quebrarmos a conformidade, poderemos deixar de ser a fábrica das ideias dos outros, para ambicionarmos ser o laboratório das nossas ambições.

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“Os peixes de águas profundas são cegos e os animais do deserto resistentes à sede.”

Entrego Encomendas em Pequim… – Hu Anyan

 

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Ir à Marcha do 25 de Abril ao Porto é o melhor antidepressivo para os tempos que correm.

O 25 de Abril tem cor, é festa, é diverso, é livre de preconceitos e estereótipos, tem futuro e o vermelho é cor de cravo, vida, arma contra o esquecimento e escudo contra as distopias de servidão.

No nosso burgo as comemorações foram arrumadas e ordenadas, tivemos um ‘Vai à Vila’ com livros, o que fica sempre bem nesta data. É pena que dentro desta cidade, não se ofereça a rua ao povo, provavelmente por medo de descobrirmos que somos quem mais ordena. Eu sei, é frase de poeta, com pouca aderência à nossa realidade… mas, não é o sonho que comanda a vida?…  mais um dito de poeta.

No dia 26 de abril, fez um ano que a Casa da Memória organizou a conferência Famalicão Cidade Aberta, onde José Carlos Bomtempo (chief creative officer e partner da agência de publicidade BAR Ogilvy, galardoado com a medalha de mérito cultural municipal em 2008), numa intervenção cheia de irreverência, provocou a assistência com o cinzentismo que ainda está colada à pele do nosso concelho.

Somos uma terra de trabalho. Que baixa a cabeça perante a máquina de costura, de braços caídos pelo peso do balde de massa (cimento), de silêncios humildes face às destemperanças do patrão. Já foi mais, hoje já temos alguma urbanidade e o elevador social ajudou (muito pouquinho) a mudar alguma coisa.

No dia em que quebrarmos essa conformidade, poderemos deixar de ser a fábrica das ideias dos outros, para ambicionarmos ser o laboratório das nossas ambições. Não por estas palavras, mas esta foi a ideia que retive da intervenção de José Carlos Bomtempo.

Somos vítimas dos nossos preconceitos, acontece a todos. Abrir-se ao desconhecido tem riscos e o nosso cérebro diz para termos cuidado. Conviver com a diversidade é exigente, requer um esforço maior para ancorar a nossa empatia. Mas se partilhamos 98% do nosso ADN com os Chimpanzés, quando perfazemos os 100%, tudo é detalhe.

Para o 27 de junho, o Movimento Humanamente anunciou a Marcha do Orgulho LGBTQIA+. Contabilizei as seguintes reações numa publicação concorrente, 462 gargalhadas, 285 iras e 194 gostos. Agora em percentagem, para dar um ar mais credível à estatística, 49% gargalhadas, 30% iras e 21% gostos. Deixo de fora os comentários, não tenho a coragem do Pacheco Pereira e mexer no cocó causa-me repulsa.

Fui adolescente nos anos 80. Num tempo em que, se uma rapariga perdesse a virgindade no secundário às mãos de uma criatura desbocada, a escola toda comentava. Nesse tempo, não “havia” gays e éramos todos puro-sangue lusitano, coisa que funciona bem nos cavalos, mas menos bem com as pessoas.

Impressiona-me todo o caminho que se fez na conquista de direitos individuais e na mudança de mentalidades. Da descriminalização da IVG (aborto) ao casamento de pessoas do mesmo sexo, nenhum destes avanços colidiu com os direitos de qualquer um de nós. Só acrescentou graus de liberdade e espaço para vivermos as nossas vidas no respeito pela nossa singularidade.

Para os mais materialistas, fica a dica, a economia só tem a ganhar quando aceitamos e assimilamos as diferenças. A história de Portugal serve de exemplo. No auge da nossa expansão marítima, por imposição da Inquisição ou movidos pela inveja mesquinha, perseguimos os Judeus (Sefarditas). Muitos deles foram para o que são hoje os Países Baixos, levando consigo todo o seu conhecimento e experiência. Foi por esta altura que os Países Baixos ganharam o estatuto de potência marítima. Ainda hoje, são um espaço de prosperidade e um referencial no respeito dos direitos humanos.

Agora, que venha o 1.º de Maio! E, por favor, boicotem a ida ao Pingo Doce ou a outro qualquer supermercado.

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