Ruído silencioso: a paz tem voz de mulher

Ao longo da história, as mulheres têm sido presença constante na construção da paz, ainda que raramente reconhecidas.

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Bertha von Suttner

Há datas que passam quase invisíveis no calendário, mas que dizem muito sobre o mundo em que vivemos. O Dia Internacional das Mulheres pela Paz e pelo Desarmamento, assinalado a 24 de maio, é uma delas. Numa altura em que os conflitos armados persistem e o investimento militar continua a crescer, esta data surge como um lembrete incómodo, mas necessário.

Ao longo da história, as mulheres têm sido presença constante na construção da paz, ainda que raramente reconhecidas. Desde cedo, vozes como a de Bertha von Suttner desafiaram a ideia de que a guerra é inevitável, defendendo o desarmamento como um imperativo moral e político. Mais tarde, Jane Addams reforçou essa visão, ligando a paz à justiça social e à cooperação entre povos.

Estas não foram exceções isoladas. Foram parte de uma tradição persistente de ativismo que atravessa gerações — muitas vezes fora dos centros de poder, mas nem por isso menos influente.

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Hoje, essa realidade mantém-se. Em cenários de guerra, as mulheres continuam a ser das mais afetadas, enfrentando deslocação forçada, violência e desigualdade agravada. Ainda assim, permanecem sub-representadas nos processos formais de negociação da paz. Esta ausência não é apenas uma falha de representatividade; é uma limitação concreta à eficácia das soluções encontradas.

Exemplos como o de Leymah Gbowee demonstram precisamente o contrário: quando as mulheres participam ativamente, os processos de paz ganham consistência e durabilidade. O seu contributo não substitui outros — mas complementa-os de forma essencial.

Perante isto, torna-se inevitável questionar o rumo atual. O reforço do armamento continua a ser apresentado como garantia de segurança, enquanto o investimento em diplomacia, prevenção de conflitos e desenvolvimento social permanece secundário. Mas que segurança é esta, que depende sobretudo da capacidade de destruição?

Talvez seja tempo de alargar a definição. Segurança não pode ser apenas ausência de ameaça imediata; deve implicar condições reais de estabilidade, dignidade e futuro. E isso exige mais do que estratégias militares — exige diálogo, inclusão e visão de longo prazo.

Assinalar o Dia Internacional das Mulheres pela Paz e pelo Desarmamento não resolve estes problemas. Mas pode, pelo menos, ajudar a recentrar o debate. Recorda-nos que a paz não é um dado adquirido nem um processo neutro – é uma construção coletiva, que ganha força quando integra diferentes perspetivas.

Num mundo onde o ruído das armas continua a dominar, talvez o verdadeiro desafio seja este: criar espaço para ouvir vozes que, durante demasiado tempo, ficaram à margem.

Porque uma paz construída sem todas as vozes dificilmente será uma paz duradoura.

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