Camilo entre divas, paixões e pancadaria

No século XIX, uma discussão sobre cantoras de ópera poderia acabar numa cena de pancadaria como hoje muitas discussões sobre futebol.

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O Prémio de Conto Camilo Castelo Branco foi criado pela Câmara Municipal de Famalicão em 1991, na presidência de Agostinho Fernandes. Fotografia DR/CMVNF

Setembro não é só o mês do regresso às aulas e às novas rotinas quotidianas. Traz de novo a agitação das salas de espetáculo, o regresso das temporadas culturais e o entusiasmo em torno dos artistas que voltam aos palcos. Mas o fascínio pelas celebridades está longe de ser um fenómeno contemporâneo. No Porto oitocentista, eram as grandes cantoras de ópera que mobilizavam multidões, alimentavam paixões e dividiam a cidade. E poucos o contaram com tanta graça como Camilo Castelo Branco. É isso que vamos abordar nesta crónica.

Muito antes das estrelas de cinema, dos ídolos da música pop ou dos chamados “influencers” das redes sociais, já havia artistas capazes de arrastar multidões, despertar paixões e alimentar um verdadeiro culto da celebridade. No Porto de Oitocentos, esse lugar era ocupado pelas grandes divas do teatro lírico: mulheres que faziam sonhar, provocavam discussões acesas, levavam os admiradores a gastar verdadeiras fortunas e que, não raras vezes, chegavam a estar na origem de autênticas cenas de pancadaria. Poucos escritores souberam captar este fenómeno com tanto humor, ironia e sentido crítico como Camilo Castelo Branco.

Camilo era um frequentador assíduo do Teatro de São João e um cronista incansável da vida social portuense. Embora nunca tenha sido um especialista na arte musical, ele próprio afirma saber de música “menos que as quatro notas da lira primitiva dos Gregos”. Nas páginas dos jornais, pela pena de “Anastácio das Lombrigas” – pseudónimo com que assinava as crónicas do “Jornal do Povo” – comentava as temporadas líricas, avaliava a performance de cantoras e tenores, mas, acima de tudo, divertia-se (e fazia divertir o leitor, ávido de notícias e mexericos) a retratar o comportamento do público que enchia os teatros.

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As grandes cantoras exerciam um fascínio irresistível sobre muitos homens da sociedade portuense. Os camarins transformavam-se em locais de romaria, onde se multiplicavam os presentes, as flores e as atenções e mordomias de toda a espécie. Camilo observava tudo isto com um sorriso malicioso, dizendo que, no seu caso, as visitas eram meramente platónicas e, por isso mesmo, muito mais económicas. Apresentando-se como um homem “boçal” em tais matérias, afirmava que as “setas” que trazia na algibeira não eram das que feriam o coração das primas-donas, numa clara alusão às suas magras possibilidades financeiras. Outros, porém, não tinham a mesma “sorte”. Camilo contava ter conhecido alguns homens que haviam dissipado a sua fortuna por causa de uma cantora. Gastando não só o próprio património, mas, inclusive, contraíam dívidas e, em casos mais extremos, chegavam a lançar mão dos brilhantes das esposas, vítimas das aparentes “inocências” líricas que podiam, afinal, revelar-se bastante dispendiosas.

A propósito do fascínio que as divas italianas exerciam sobre os jovens portuenses, afirmava com ironia que Itália fazia “uma farta importação de corações portuenses”, sem sequer pagar a devida “corretagem” às responsáveis por tão lucrativo negócio sentimental. Eram outros tempos, mas a linguagem e os atos parecem-nos estranhamente familiares e atuais. Hoje há quem espere horas à porta de um hotel, de um aeroporto ou de uma sala de espetáculos para conseguir ver de perto uma celebridade do mundo artístico.

Taberna da Ponte da Pedra, onde aconteceu o confronto entre os apoiantes de Dabedeille e Camilo, que resolveu brindar a Belloni em março de 1849.

No Porto do século XIX, a devoção pelas divas também podia ultrapassar os limites do razoável. Camilo conta-nos um episódio particularmente revelador a propósito da chegada da cantora italiana Giulietta Lainati, em 1853. Mal a notícia da sua presença se espalhou pela cidade, houve quem se apressasse a descobrir onde a diva estava hospedada. Chegaram, inclusivamente, a pressionar um pobre carpinteiro do Teatro de São João para que revelasse tal informação. A resposta não terá sido propriamente delicada, mas a notícia acabaria por surgir: Giulietta Lainati estava instalada na Rua do Sol, para as bandas da Sé. Bastou essa indicação para que dezenas de janotas da cidade se precipitassem de imediato para o local. Ali permaneceram, sob as janelas da diva, numa espécie de serenata improvisada – uma verdadeira romaria de admiradores que hoje nos faria lembrar o comportamento dos fãs diante do hotel de uma estrela do mundo da música ou do futebol.

A tecnologia mudou. A paixão, os afetos extremados, aparentemente, não. Hoje seguem-se celebridades no Instagram; no passado, procurava-se saber onde estavam hospedadas. Hoje disputam-se fotografias, “selfies” e autógrafos; então disputavam-se olhares, flores e visitas aos camarins. Hoje há fãs-clubes e seguidores; então havia admiradores capazes de transformar uma cantora numa verdadeira heroína popular.

Um dos exemplos mais marcantes do fascínio exercido pelas divas líricas sobre o seu público foi o de Elise Friederike Hensle. Uma jovem cantora alemã que além de conquistar o público português, conquistou o coração de D. Fernando II, viúvo da rainha D. Maria II, e com quem viria a casar em 1869, tornando-se Condessa de Edla.

Quando parte da imprensa da época procurou desvalorizar o seu talento artístico e lançar suspeitas sobre o seu passado de cantora, Camilo saiu em sua defesa. Recordou o êxito da sua estreia no Teatro de São João, quando chegou a Portugal em 1860, e recusou que uma mulher fosse julgada exclusivamente pela sua anterior carreira artística.

No entanto, a defesa da Condessa de Edla não era totalmente desinteressada. Camilo vivia então uma relação extraconjugal com Ana Plácido e conhecia bem os rigores do julgamento social. Ressentido também pela recusa de D. Luís em lhe conceder o título de Visconde devido à sua situação de mancebia, aproveitou o caso para questionar a diferença de critérios morais aplicados às mulheres que se relacionavam com a realeza e às restantes. Como mais tarde confessaria numa carta ao Visconde de Ouguela, procurara no artigo “manter gentilmente a ironia”. Quem conhece Camilo sabe que a sua ironia nem sempre era assim tão gentil.

No Porto, à semelhança do que acontecia nos grandes teatros de outras cidades, a rivalidade entre as cantoras líricas era uma realidade recorrente. A disputa pelo reconhecimento, pelos aplausos do público e pelo prestígio artístico das intérpretes e das suas companhias transformava cada temporada lírica num verdadeiro palco de talentos, vaidades e popularidades em confronto. Os admiradores dividiam-se em autênticas fações, defendendo “a sua” cantora com um fervor que hoje facilmente associamos às rivalidades clubísticas do futebol. Havia aplausos ensurdecedores, pateadas impiedosas – manifestações de desagrado através de batimentos dos pés no chão –, assobios e até campanhas nas páginas dos jornais. E nem sempre estavam em causa apenas questões de gosto musical: por detrás dessas disputas escondiam-se frequentemente simpatias políticas, rivalidades sociais e antigas animosidades, que encontravam no teatro um palco privilegiado para se manifestarem num período de profunda agitação política.

Voaram copos, levantaram-se cadeiras, apareceram facas e instalou-se uma violenta pancadaria. No dia seguinte, Camilo descrevia tudo no jornal com o humor que lhe era habitual, confessando ter sentido “uma mão de ferro na garganta” e encontrado o companheiro com a cabeça aberta por uma cadeirada.

Camilo acompanhou muitas dessas guerras entre divas e algumas vezes manifestou o seu lado da barreira. Sem esconder a sua preferência, sabemos que admirava a cantora Clara Belloni, uma artista que dividia o palco com a espanhola Adèle Dabedeille na temporada operática portuense de 1848-1849. Belloni era uma jovem italiana casada com um tenor – circunstância que, segundo a ironia de Camilo, fazia dela “um beco sem saída” para os seus admiradores cartistas. Já a espanhola Dabedeille, uma mezzo-soprano, solteira e considerada de grande beleza, reunia em torno de si muitos dos simpatizantes da causa setembrista.

E foi precisamente esta rivalidade que foi o mote de um episódio digno de uma comédia, protagonizado pelo escritor numa estalagem junto à Ponte da Pedra, em Leça do Balio. Aí decorria um jantar em honra de Dabedeille no qual se reuniam alguns dos seus fãs ou “seguidores”, segundo uma linguagem mais atual. Camilo e um amigo, muito embora não convidados para o dito jantar, resolveram aparecer e provocar os demais fazendo um brinde a Belloni, cantora rival pela qual nutriam o seu afeto. O resultado foi imediato: voaram copos, levantaram-se cadeiras, apareceram facas e instalou-se uma violenta pancadaria. No dia seguinte, Camilo descrevia tudo no jornal com o humor que lhe era habitual, confessando ter sentido “uma mão de ferro na garganta” e encontrado o companheiro com a cabeça aberta por uma cadeirada.

Uma discussão sobre ópera tinha acabado como muitas discussões de futebol acabam hoje – embora, felizmente, nem sempre com facas pelo meio. Anos mais tarde recordaria esse episódio com um misto nostálgico de divertimento e crítica, lamentando que amizades se desfizessem e homens respeitáveis chegassem à violência apenas por causa da preferência por uma cantora de ópera.

Talvez seja esta uma das facetas mais curiosas de Camilo Castelo Branco. Para além do grande romancista, foi também um observador privilegiado da sociedade do seu tempo. Nas divas do Teatro de São João viu muito mais do que artistas talentosas: descobriu um fenómeno de idolatria coletiva que, afinal, pouco difere (talvez apenas nos meios) daquele que hoje rodeia atores, cantores ou influenciadores.

Mudam os palcos, mudam os protagonistas, mas a paixão pelas celebridades continua, dois séculos depois, surpreendentemente igual. Por isto e tanto mais, que deixaremos para outras crónicas, Camilo encanta, atrai, e se lê e relê, sempre com atualidade. Porque, quase dois séculos depois, continuamos a reconhecer-nos nas paixões, nos excessos e nas pequenas loucuras que ele observou – e retratou – com um sorriso de ironia.

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