Famalicão, ópera-bufa

A imperfeição do Homem começa na vaidade. E o pior da vaidade é que não papa grupos: pensemos num eucalipto, sugando água desalmadamente da terra esquálida e exangue. Tudo à sua volta definha e, se quer sobreviver, aceita a condição de subalternidade. E é bom que se esvaia de ter mais pretensões, senão passa a ser uma ameaça existencial para o eucalipto.

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Agora experimente substituir ‘eucalipto’ por ‘poder autárquico’. E seja bem-vindo ao nosso mundo. O mundo autárquico é aquele mundo paroquial e bafiento onde, protegida pela absoluta discricionariedade dos pequenos poderes, a vaidade mais rapidamente escala para a soberba.

E a soberba raramente baixa a guarda. Não nos deixemos enganar nem pelos salamaleques nem pelos sorrisos de ocasião. É tudo pose. O verniz está sempre a uma unha de estalar, e por coisa pouca ainda por cima. Veja-se agora o caso que nas últimas semanas pôs em polvorosa o PSD-F. Com uma ajudinha insuspeita: o incómodo, que ninguém lhes tira, podem começar por agradecê-lo ao amigo de ocasião, o PS-F.

O PS-F, às vezes, dá com o torrão na ponta da enxada. Do que se haviam eles de lembrar, agora homenagear dois dos anteriores presidentes de câmara! Um de cada partido, e para ser salomónico: ao Dr. Agostinho Fernandes (presidente da câmara pelo PS nos anos 1983-2001) tocava-lhe dar o seu nome à Casa das Artes; ao Arq. Armindo Costa (presidente da câmara pelo PSD/CDS nos anos 2002-2013), ao Parque da Devesa.

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Mário Passos dá muito o flanco a estas provocações. É até divertido de assistir, porque ainda por cima disfarça mal.

Se me permitem a franqueza? O primeiro estava lá só para enfeitar a proposta. Com o que PS-F gosta dele… Mas como o segundo é o páter-famílias deste ecossistema social-democrata que vive encavalitado na estrutura camarária desde há mais de uma vintena de anos, fica difícil não reparar no engodo. Enjeitado: é um páter-famílias enjeitado, convirá dizer.

Agora, com engodo ou sem engodo, numa coisa haveremos de assentarmos todos: Mário Passos dá muito o flanco a estas provocações. É até divertido de assistir, porque ainda por cima disfarça mal. Lá quanto a isso, o homem terá as suas virtudes e os seus defeitos, mas de ser dissimulado ninguém o pode acusar. A sério. Chega a ser translúcido de tão facilmente que podemos ler nele.

A modos que a maioria reprovou a proposta do PS-F. E dizer reprovou é pouco: Mário Passos fez tudo e um par de botas para cortar a proposta pela raiz. Começou por nem sequer a admitir na agenda da reunião de câmara. Fez isso não uma, mas duas vezes. Importa dizer que a legalidade destas decisões é bastante discutível.

Em Famalicão a lei e a responsabilização correm em pistas separadas.

Pelo meio, já o PSD-F, na pessoa do presidente da concelhia, desautorizara publicamente Mário Passos, o que é sempre um espectáculo bonito de se ver. Mário Passos tudo ignorou. Em Famalicão a lei e a responsabilização correm em pistas separadas.

O PS-F então solicitou uma reunião de câmara potestativa para discutir a sua proposta. Não podendo recusar o agendamento, ao executivo municipal restava-lhe ser original: vai daí, acrescentou uma proposta própria à agenda de trabalhos, o que, uma vez mais, é no mínimo duvidoso legalmente.

Fez-se então a reunião de câmara potestativa, mas à porta fechada – por imposição de Mário Passos. Percebe-se como estava confortável com a situação. A proposta do PS-F foi chumbada pela maioria PSD/CDS. À homenagem dos dois presidentes de câmara, Mário Passos classificou-a como uma «manobra de diversão». Isto, como argumento, já é bastante bom, mas ainda melhora. Veja-se isto: «a proposta não é séria e visa apenas ofuscar a acção do executivo».

Estão a ver o que eu dizia sobre vaidades e eucaliptos? O problema de Mário Passos com homenagens a anteriores presidentes de câmara é a mera possibilidade de assim se ofuscar o mandato actual. Ou seja, ele.

Acrescentar que o Chega-F tinha anunciado que votaria a favor da proposta do PS-F, mas chegada a hora absteve-se. Em alternativa, votou a favor da proposta do executivo municipal, que é assim a modos que mais abrangente. Conclui-se, afinal, que o mal da proposta do PS-F era pecar pela modéstia: o PSD/CDS quer mais, quer muito mais!

E por conseguinte, tomem lá nota. A câmara municipal vai homenagear não apenas aqueles dois, mas todos os presidentes de câmara da história democrática do concelho. E é assim que, ao longo de 2026 e 2027, decorrerá em Famalicão um programa comemorativo que incluirá «núcleo expositivo permanente», uma «exposição itinerante», um «ciclo de conferências» e «aulas abertas nas escolas secundárias do município». E uma obra de arte evocativa do poder local. Pois claro. Mais uma!

Já agora, um aparte para o papel do Chega-F nisto tudo. Claro que o Chega-F tinha de votar a favor da proposta do executivo municipal. Uma coisa que já percebemos é que o Chega-F está sempre pronto a abrir os cordões à bolsa (pública) para glorificar o «sistema».  Ser consequente com o que se diz (grita) é que já dava mais trabalho e o Chega, genericamente falando, é alérgico a trabalhos.

Dá-se até o caso de se ir agora pagar mais uma obra de arte evocativa da obra imorredoira dos autarcas do nosso concelho, quando já existe uma a servir tal propósito: está ali plantada nos jardins dos Paços do Concelho, bem na frente dos narizes dos senhores vereadores. O Chega-F não se deu conta?

Entretanto reina o mal-estar no PSD-F. O ramalhete completou-se com o caso risível de um vazamento de documentos internos que expôs ao público uma carta de Armindo Costa dirigida ao partido onde acusa Mário Passos de «enorme hipocrisia» e afirma o seu «imenso desconforto» por ver o «seu nome arrastado na praça pública». Mário Passos não se dignou responder. Melhor assim.

Em 2021, entre quantos nomes se perfilassem no PSD-F para assumir a liderança da autarquia, foram encontrar este espécime raro, absolutamente alheado do corpo de valores devotado ao serviço público.

Isto é como por estes dias dizia um dos nossos líderes partidários locais (citando Napoleão), «nunca devemos impedir um adversário de cometer um erro». Pois não. Com a única ressalva de que Mário Passos não tem adversários, tem inimigos. E, tomando-o pela medida das suas atitudes, parece que os piores estão dentro do seu próprio partido.

Temos, portanto, que lhe serviram um sapo e a mensagem parece ser a de que Mário Passos não engole sapos – vindos dali, pelo menos. Digamos antes assim: é especioso quanto ao tipo de sapos que aceita engolir. Será porque pode.

Quanto a mim, reservo-me um frémito de gozo diante do papelão a que se vêm sujeitando os corpos electivos locais do PSD-F, vexame atrás de vexame. É só justo que assim seja. Repare-se: em 2021, entre quantos nomes se perfilassem no PSD-F para assumir a liderança da autarquia, foram encontrar este espécime raro, absolutamente alheado do corpo de valores devotado ao serviço público. Um ególatra que repetidamente dá provas de estar desconfortável com quaisquer limites ao seu livre-arbítrio. Agora levam com ele, eles também. Pelo menos não podem atirar as culpas para cima de mais ninguém.

O homem tem maus fígados. Outra coisa que também tem é a cegueira dos deslumbrados.

Outra coisa é se isso revela pouca inteligência política da parte de Mário Passos. Eu cá tendo a achar que sim, mas isso sou eu que, já se sabe, embirro com ele. E para surpresa de absolutamente ninguém, realmente… Veja-se como, não satisfeito por afrontar o homem que lá atrás lhe deu palco, ainda se sai com bazófias para a imprensa, do tipo «eu não temo nada».

Está feito um homem, o Marito. Quem o visse, nos alvores do mandato do presidente Armindo Costa, a esvoaçar da actividade lectiva na Universidade do Minho para delegado regional de Braga do Instituto Português da Juventude (em regime de substituição) e dali, cerca de um ano depois, para o remanso prometedor da autarquia famalicense, não lhe auguraria semelhantes bojardas. Mas é o que temos. Do que não há dúvida nenhuma: o homem tem maus fígados.

Outra coisa que também tem é a cegueira dos deslumbrados. E outros por ele. Muita boa gente saiu da toca por estes dias para repetir o mantra de que foi ele, e só ele, quem ganhou as últimas eleições autárquicas. As opiniões leva-as o vento, mas permito-me, muito humildemente, discordar. A coligação ganhou as eleições apesar de Mário Passos, não por causa dele. A não ser esse o caso, então como se explica que a coligação venha em perda desde há oito anos, tanto em percentagem eleitoral como em número de vereadores? Perdeu um vereador no primeiro mandato de Mário Passos e mais outro no segundo.

No caso, que já foi mais improvável, de a concelhia do PSD lhe tirar o tapete, restar-lhe-ia candidatar-se como independente, e tendo contra si o candidato do PSD/CDS. Boa sorte com isso. Mário Passos terá muitos pontos de contacto com Isaltino Morais, mas nenhum deles é a capacidade de capitalizar pela empatia.

A coligação ganhou as eleições apesar de Mário Passos, não por causa dele.

E se acham este cenário pouco plausível já para o próximo ciclo eleitoral autárquico, digo apenas isto: o presidente da distrital do PSD que impôs o candidato Mário Passos à vontade da concelhia já saiu de cena; Paulo Cunha foi despachado para casa com o voluntarioso contributo da concelhia de Famalicão. Com essa não pode Mário Passos mais contar.

Resta-lhe Luís Montenegro. Não é coisa pouca, sei disso, mas e se o actual primeiro-ministro sair de cena até 2029? Pode acontecer, e mesmo com a coligação a manter-se no poder. Nesse caso, Mário Passos vai respaldar-se em quem para se impor à concelhia como o candidato da coligação? Nos velhinhos que vão a Fátima em setembro? Não sei se chega.

Adiante. A ingratidão é o pão nosso de cada dia da política, logo não chega a ser notícia. A mim o que me comove nesta história toda é o que ela nos revela, pela enésima vez, acerca da pequena vaidade (lá está!) que comanda o coração dos Homens.

Em primeiríssimo lugar, esta propensão nacional-bacoca para o endeusamento de figuras políticas. Não é de hoje. Tenho para mim que a política olha demasiado para o próprio umbigo. E quanto mais se baixa na cadeia alimentar, maior é a tentação. Personagens pequenos inflam com grandes panegíricos, é da praxe.

Ainda um dia se fará essa estatística, mas eu pergunto: quantas placas e plaquinhas proliferam pelos quatro cantos do nosso país? Demasiadas, e convém elevar isto ao expoente do ridículo. Em Portugal não se inauguram apenas rotundas e edifícios, o bulício sacramental chega a salas de reunião e guias de passeio.

A cruzada de Mário Passos não tem nada que ver com uma qualquer aversão a personalizações excessivas. Logo ele que nem seis meses tinham passado de mandato e já garantia uma rua com o seu nome na freguesia de Nine.

Portanto, que o PS-F dedique energias a esta questão é revelador de uma acção política muito centrada nas personalidades que ‘fazem’ a política e menos no contexto histórico em que se desenvolveram as políticas. Ou seja, não devem nada a uma análise crítica que pondere o triângulo criterioso que une oportunidades, recursos e conseguimentos. Mais agora, que se tornou moda argumentar que se ‘devem honrar as pessoas em vida’. Lindo. Redondo. Insofismável. Como o PS-F tanto gosta.

Fica aqui, e desde já, a minha posição de princípio: sou contra estes baptismos de equipamentos públicos. A Casa das Artes e o Parque da Devesa são equipamentos distintivos que muito qualificam a cidade e o concelho, e honram por si mesmos a memória de todos quantos contribuíram para que a obra nascesse. Entre os quais, destacadamente, os dois edis referenciados: isso nem se discute.

Mas passou pouco tempo (sim, nestas coisas do juízo histórico três décadas é pouco tempo!) e a avaliação que se possa fazer dos respectivos mandatos encontra-se fatalmente contaminada pela memória pessoal de todos quantos privaram com os personagens e as suas circunstâncias. Como agora se vê, uma vez instalada a guerra de claques, com nomes e obras convertidos em armas de arremesso.

E o que ganhamos nós, afinal, em convocar este tipo de animosidades e maniqueísmos para obras que pertencem ao nosso quotidiano e são consensuais? Eu digo para o que servem estas iniciativas: para daí se tirarem ganhos de causa políticos. Não nos iludamos: quem se apodera dos nomes vigentes no espaço público de certa forma impõe uma notoriedade, uma prevalência de uns nomes sobre outros nomes. Escreve uma história que, espera, venha a vingar pelos anos vindouros.

Ainda há bem pouco tempo, no palco maior da política nacional, se assistiu a um jogo de sombras desta natureza, querem saber? Foi isso quando o governo correu a baptizar o novo aeroporto de Lisboa – que ainda nem sequer começou a ser construído! – com o nome do nosso poeta maior. Quem sabe, entenderá: o novo aeroporto levará para a posteridade o nome de Luís Vaz de Camões apenas para não deixar vaga a oportunidade (que se desenhava) de ser entronizado com o nome de Mário Soares. Pois…

Mas voltando ao nosso mundinho caseiro. Importa clarificar que a cruzada de Mário Passos não tem nada que ver com uma qualquer aversão a personalizações excessivas. Logo ele que nem seis meses tinham passado de mandato e já garantia uma rua com o seu nome na freguesia de Nine. Imagino-o, nos seus dias maus – que digo, terá Mário Passos dias maus? – a furar a agenda para dar uma escapadinha até à rua onde o seu ego encontra o afago que sem dúvida merece. Não é para todos.

Termino reclamando a paternidade de uma ideia ainda mais ambiciosa, e é da maneira que escusam de querer vir roubá-la mais tarde. Pois tenho para mim que tanto a Casa das Artes como o Parque da Devesa ficavam muito melhor encomendados ao futuro se ostentassem ambos o nome do nosso actual benfeitor. Parece-vos pouco? Não tem problema, junta-se-lhes o novo/remodelado estádio municipal!

E os outros dois que se aguentem à bronca.

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