Os tempos em que vivemos acontecem, numa grande percentagem, através de um ecrã. A informação chega-nos pelas redes sociais, as comunicações são feitas por aplicações, aprendemos através de vídeos, trabalhamos com ferramentas digitais e convivemos com sistemas de inteligência artificial. A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta, para passar a ser parte do nosso dia-a-dia e fazer parte do ambiente em que pensamos, aprendemos e nos relacionamos. Parece-me importante uma pequena, mas urgente e importante reflexão: que cidadãos estamos a formar?
Durante décadas, quando falávamos em educação, falávamos de transmissão de conhecimento, linhas de orientação sociais e pessoais, preparação e orientação para o futuro. Hoje, parece não ser a missão mais importante e suficiente, na medida em que, qualquer criança ou jovem tem a informação que pretende em poucos segundos, encontrando respostas para quase tudo o que possa imaginar. O verdadeiro desafio passou a ser outro: saber distinguir informação de conhecimento, facto de opinião, verdade de manipulação. Aqui a educação ganha um papel preponderante e uma responsabilidade acrescida.
Apesar das redes sociais terem democratizado o acesso à comunicação, permitindo que qualquer pessoa possa produzir e partilhar conteúdos, numa liberdade que trouxe novos desafios. As pesquisas levam-nos para o que gostamos, prendem-nos com conteúdos dos nossos interesses, fecham-nos com matérias que concordamos e assim mantem-nos mais tempo ligados e fechados em pequenas “bolhas” onde apenas vemos e ouvimos quem pensa como nós. Importa salientar que, uma sociedade democrática não se constrói apenas com cidadãos que sabem defender as suas opiniões, mas com cidadãos que saibam ouvir, questionar, argumentar e aceitar que podem estar errados.
Parece-me fundamental que a educação para o digital não deva ser apenas ensinar a utilizar uma aplicação, a criar uma apresentação, a partilhar um conteúdo ou a procurar informação na internet, mas desenvolver pensamento crítico, verificar as fontes, reconhecer manipulação e compreender o funcionamento dos algoritmos para assim percebermos que nem tudo o que aparece nos ecrãs merece a nossa atenção e muito menos a nossa confiança. E, já que falamos de atenção, vivemos numa economia em que a atenção humana tem um grande valor: notificações, vídeos curtos, recomendações personalizadas e conteúdos rápidos disputam o nosso tempo e a nossa atenção. O problema não é usar a tecnologia ou as redes sociais, mas sim quando permitimos que sejam as mesmas a tomar as nossas opções, decisões e a concentrar as nossas atenções.
A educação deve ter o papel de formar pessoas capazes de desligar, de estarem numa conversa som olhar para o ecrã do telemóvel, de fazerem uma refeição esquecendo que a tecnologia existe, de ler um texto de um livro e tirar as suas conclusões, de ter a capacidade de esperar por uma resposta, de lidar com o silêncio e de pensar opor si mesmo, porque pensar exige tempo, silêncio e reflexão. Hoje a sociedade perdeu a capacidade de estar em silêncio, de refletir e de se expressar sem tecnologias.
A Inteligência Artificial (IA) chegou tornando esta discussão mais urgente. Se a IA consegue, através de uma máquina, responder a uma pergunta, resumir um texto, produzir imagens, escrever textos em segundos, a escola e a sociedade terão de repensar o que valorizam porque mais do que avaliar a capacidade de resposta, será necessário avaliar a capacidade de elaborar perguntas, interpretar respostas, tomar decisões e assumir responsabilidades.
A tecnologia pode ajudar a formar cidadãos mais informados, mais criativos e participativos, mas pode também transformar em cidadãos mais dependentes, mais impacientes e mais vulneráveis à manipulação. Desta forma, há que perceber a importância do tipo de educação a construir à nossa volta, tendo em conta a tecnologia que teremos à nossa disposição. Na verdade, importa discutir que tipo de sociedade queremos ser e não discutir sobre o uso de telemóveis, redes sociais e inteligência artificial. Queremos formar cidadãos consumidores de informação digital ou cidadãos que a saibam questionar? Cidadãos que validem constantemente a informação ou que pensem por eles mesmos? Simples utilizadores de tecnologia ou cidadãos conscientes da influência da tecnologia nas suas decisões?
A grande missão da educação hoje, talvez seja ensinar-nos a utilizar a tecnologia sem permitir que a tecnologia decida quem somos. Para formar cidadãos do futuro não significa prepará-los única e simplesmente tecnologicamente, mas como seres humanos com responsabilidade, capazes de fazer as próprias escolhas, com visão e opinião crítica que garanta a sua liberdade.


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