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Vila Nova de Famalicão
Segunda-feira, 4 Julho 2022
Dina Coelho
Residente na freguesia de Bairro, é filha de pais surdos e intérprete de língua gestual portuguesa (LGP). Exerce a profissão de intérprete de LGP desde 2015, em vários contextos, mas essencialmente no âmbito educativo. É coautora do livro Por Amor e mestre em gerontologia. Atualmente pertence aos órgãos sociais da Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa (ATILGP) e da Associação de Surdos de Apoio a Surdos de Matosinhos (ASASM).

Língua gestual na música

Eles estão na televisão, na internet e nos espetáculos e trazem as canções a quem não consegue ouvir.

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Dina Coelho
Residente na freguesia de Bairro, é filha de pais surdos e intérprete de língua gestual portuguesa (LGP). Exerce a profissão de intérprete de LGP desde 2015, em vários contextos, mas essencialmente no âmbito educativo. É coautora do livro Por Amor e mestre em gerontologia. Atualmente pertence aos órgãos sociais da Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa (ATILGP) e da Associação de Surdos de Apoio a Surdos de Matosinhos (ASASM).

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Intérprete Filipa Carvalho, MusicSign, Coro “Mãos que cantam” e equipa de interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP) do Festival da Canção, são os quatro projetos de interpretação de músicas em língua gestual portuguesa que vos vou apresentar hoje.

INTÉRPRETE FILIPA CARVALHO
Filipa Carvalho, intérprete desde julho de 2009, com o canal no Youtube conta que esta ideia de interpretação de músicas em LGP surgiu em plena pandemia.

“Ano 2020, pandemia. Depois de ouvir ‘A Nossa Voz’, da Mariza, inúmeras vezes na televisão, decidi, em jeito de brincadeira e pensando que devia estar acessível a todos, interpretar e enviar a duas amigas surdas. O feedback foi de tal maneira positivo que me incentivaram a publicar no Facebook. Publiquei e passado poucos minutos foi gratificante e surpreendente ver a quantidade de surdos que não só agradeceram a interpretação como me pediram para interpretar outras músicas. E assim começou este desafio tão prazeroso”.

Diz que teve o apoio e sugestões de várias pessoas surdas depois da publicação de cinco ou seis músicas no Facebook “os meus mestres surdos começaram a dar-me cada vez mais dicas. Um sugeriu que usa-se o fundo preto por ser surdocego, tornando assim a mensagem mais acessível a todos, outro ensinou-me a usar a camara do telemóvel e a melhor luz para os vídeos, outro impulsionou-me a criar o canal de Youtube e muitos outros surdos, incluindo estas minhas duas amigas de quem falava inicialmente, dão-me sempre a sua opinião e ajuda a nível gestual. Por isso, o meu canal de Youtube e a projeção que possa ter tido deve-se à comunidade surda que esteve sempre do meu lado, a apoiar-me. Aliás, de outra forma não faria sentido”.

A escolha de músicas depende da sua inspiração ou de pedidos por parte da comunidade surda. A interpretação exige uma preparação “antes disto tudo há o estudo da letra, as possibilidades de interpretação, o pedido de ajuda aos meus mestres surdos sobre dúvidas ao nível da língua gestual” e ao sentir-se inspirada e pronta para gravar “coloco o pano preto como cenário, a ring light focada nas mãos e na cara, telemóvel em modo vídeo, exposição de imagem bloqueada e começo”.

Realça que o objetivo deste “projeto” é “proporcionar acessibilidade aos surdos, na sua primeira língua, às músicas que nós, ouvintes, ouvimos diariamente na rádio, na televisão, em festas, concertos e até mesmo em muitas lojas de roupa. Até hoje não tive nenhum lucro monetário com este “projeto”, esse não é nem nunca foi o objetivo. Mas já tive muitos lucros melhores que esse. O carinho, a gratidão, o apoio, o incentivo, a inspiração, o amor e o respeito pela língua gestual e pela comunidade surda. Obrigada, Comunidade Surda. Obrigada”.

MUSICSIGN
MusicSign é um projeto dos intérpretes de LGP, Rafa Cota Silva e Pedro Oliveira. Na altura em que o projeto surgiu só a Rafa é que tinha experiência na interpretação de músicas/espetáculos ao vivo, isto porque o Pedro tinha acabado de se licenciar, apesar de, tal como a Rafa, ser um amante das artes performativas, “atualmente ambos temos experiência na interpretação de espetáculos ao vivo”.

Referem que este projeto surgiu “devido ao nosso desejo enquanto intérpretes de língua gestual de querermos tornar a música acessível à comunidade surda. Começamos por gravar um primeiro vídeo bastante amador e com poucos recursos e, posteriormente, disponibilizamo-lo no Youtube. Este vídeo teve feedback positivo quer por parte da comunidade surda como da ouvinte e, por isso, decidimos realizar um segundo vídeo. Este vídeo foi um pouco mais profissional na medida em que foi gravado em estúdio por uma pessoa da área da multimédia e não contou apenas com um plano único e estático como o primeiro, tendo já alterações de planos de gravação e edição de vídeo. Quando foi partilhado também recebeu boa aceitação da comunidade e muitas partilhas e foi nesse momento que pensamos que faria sentido criar algo que não fosse apenas o Pedro e a Rafa a interpretar e foi assim que o projeto nasceu como MusicSign. Todos os vídeos que fazemos desde então são sempre disponibilizados no nosso canal do Youtube e posteriormente divulgados nas nossas redes sociais, Facebook e Instagram, quer do projeto como nas nossas contas pessoais.”

Relativamente à preparação “começa por escolher a música que pode ser por iniciativa de um de nós e proposta ao outro, pode ser por sugestão de alguém ou porque simplesmente gostamos da música. Tentamos que sejam músicas conhecidas e do momento, isto é, músicas que estejam frequentemente a passar na rádio.”

O passo seguinte à escolha da música é a “discussão das opções de interpretação e a divisão das partes da música entre nós”. Quando “a proposta de interpretação fica concluída, procedemos a um trabalho mais individual de prática da interpretação durante uns dias. Depois disso, juntamo-nos para praticarmos em conjunto e começarmos a falar sobre o aspeto performativo do vídeo. Isto porque como se pode verificar, um dos nossos objetivos é que os vídeos não sejam monótonos e estáticos, filmados apenas com um fundo com uma parede como se vê em muitos destes trabalhos, mas sim que seja um produto final visualmente atrativo e dinâmico, tendo sempre em conta as caraterísticas visuais e culturais da comunidade surda. De referir que, na maioria das vezes, trabalhamos com a colaboração de uma pessoa surda, o Cristóvão Marto, ou com uma empresa de produção áudio visual, a AltamenteProd.”

O trabalho do MusicSign pode ser acompanhado nas suas redes sociais, no Facebook e no Instagram.

MÃOS QUE CANTAM
O “Projeto Mãos que Cantam” surgiu porque “em 2010 existia na Universidade Católica Portuguesa, no curso de LGP, duas turmas de apenas alunos Surdos. Uma das docentes do curso fazia parte do coro da UCP e ela teve a ideia de propor ao maestro de incluir no coro esses alunos Surdos. O Maestro sem qualquer conhecimento sobre a comunidade surda aceitou o desafio.”

Assim nasceu este coro, a que se deu o nome Mãos que Cantam. “Inicialmente foi uma aprendizagem para todos, tanto para o maestro como para todos os Surdos, que começou com cerca de 15 Surdos. Começamos com uma música que já tinha tradução em LGP feita por uma Surda, o Imagine. Depois começamos nós a fazer as glosas de músicas que o maestro escolhia para os concertos que íamos, que na altura demorávamos imenso tempo a fazer e que hoje já fazemos rapidamente. Com o tempo e o fim dos cursos ficamos reduzidos 5 coralistas sendo que neste momento fazem parte do grupo os 5, o maestro e a intérprete, todos indispensáveis.”

Com este projeto, “o maestro foi aprendendo LGP mas há termos e que ele ainda não domina, daí a importância da nossa intérprete. Além disso quando há apresentações nos concertos temos sempre a intérprete”. Relativamente aos espetáculos que têm tido, referem que “ao longo dos anos temos tido imensos concertos, como na Fundação Gulbenkian, em Fátima quando veio o Papa, na Madeira com a Cuca Roseta, enfim de norte a sul do país. Temos também feito vídeos, um deles com o cantor Jorge Palma.”.

No que concerne aos ensaios, este coro relata que uma diferença antes e após a pandemia “os nossos ensaios são geralmente num dia a noite durante a semana ou no fim-de-semana, isto antes da covid–19 e quando tínhamos mais concertos. Infelizmente com início da pandemia, os concertos reduziram e só nos temos juntado para ensaios quando há concertos e tentamos que sejam músicas já antes feitas”.

Este grupo, em relação à preparação da interpretação da música, começa por tentar “perceber cada frase da música por causa das metáforas, sentimentos, sentidos escondidos que muitas vezes só a pessoa que a escreveu entende. Depois de percebermos tudo é que pensamos nos gestos que vamos usar sempre pensando no sentido em LGP e na “musicalidade” de forma a ficar bonito. Por fim passamos para o papel os gesto a que se chama glosa. E para que não haja falhas nem esquecimentos filmamos também.”
Para mais informações e conhecermos este trabalho, podemos consultar o site maosquecantam.org e a página no Facebook.

FESTIVAL DA CANÇÃO EM LGP
Por último, vamos conhecer a equipa de interpretação em LGP do Festival da Canção, equipa esta que “foi formada com base na experiência e no interesse no contexto musical. A equipa tem sido sempre constituída por pessoas surdas e ouvintes. Pessoas surdas que têm experiência em canto gestual, em Língua Gestual Portuguesa e em Gesto Internacional, e por pessoas ouvintes que são intérpretes de Língua Gestual Portuguesa com experiência na interpretação musical. Antes da COVID-19, chegamos a ser 10 elementos, em que conseguíamos até trabalhar a pares em simultâneo. Atualmente tivemos de reduzir a equipa”.

Mas vamos perceber como e quando é que surgiu esta acessibilidade. “A ideia nasceu de pessoas surdas que gostavam que o Festival da Canção fosse acessível através da Língua Gestual Portuguesa. Tentámos sensibilizar a RTP para esta importância e em 2018 foi possível iniciarmos. E chegamos a assegurar o Festival Eurovisão da Canção, que coincidiu no ano em que começou a ser realizado em Portugal”.

Esta equipa refere que a importância desta acessibilidade é “enorme. Era uma aspiração de muitas pessoas surdas. Como sabemos, muitos são os surdos que adoram música, e que inclusive cantam em Língua Gestual Portuguesa. Noutros países já existia esta tradição de ter as emissões dos seus festivais da canção nas suas Línguas Gestuais. Por outro lado, é uma forma de dar maior visibilidade à LGP e mostrar a muitas pessoas ouvintes que é uma língua rica de imensas possibilidades.”

Relativamente à preparação da interpretação “preparação é sempre conjunta, com base em partilha de estratégias e de melhores formas de assegurar a fruição dos espectadores surdos e dos ouvintes interessados. Os colegas surdos da equipa são sempre essenciais para as escolhas que temos de fazer em equipa. E também recorremos a outras pessoas surdas de fora da equipa. Começamos a trabalhar com a maior antecedência possível, tendo acesso prévio às letras, vídeos, guiões e outros materiais que a RTP nos envia, assistindo aos ensaios dos artistas e reunindo entre nós”, sentem que o maior desafio é conseguir “conseguirmos trabalhar todas as canções e os textos dos apresentadores, e assistir a ensaios, e conciliarmos com todas as nossas atividades profissionais. Assim como o espaço que temos, que não é muito grande.”

Questionei acerca do vestuário, pois é diferente de qualquer outra interpretação televisiva e noutros contextos, esta equipa explica que “no primeiro ano optámos por usar vestuário escuro. No entanto, o retorno das pessoas surdas foi o de que devíamos utilizar outras cores e até conjugar se possível com o vestuário artistas. O facto de estarmos em formato maior ajuda a essa possibilidade de ter melhor contraste. Todavia, como trabalhamos com o Chroma Key não podemos utilizar tons de verde. E, claro, não usamos padrões nem temos as unhas pintadas de tons fortes. Sentimos que é um contexto diferente, é um momento de festa e de música, devemos estar vestidos também de acordo com o momento, e nos outros países que já fazem este trabalho há mais tempo, também o fazem, vestindo cores e acessórios.”

A interpretação em LGP do Festival da Canção é acessível apenas online, “hoje em dia sabemos que muitas pessoas surdas em casa e nas associações de surdos projetam a emissão online nas televisões. Na Internet temos a possibilidade de estar em formato maior incorporando a emissão da RTP1.”

Poderemos assistir ao trabalho desta equipa já esta semana, o Festival da Canção 2022 acontece este mês de março. No dia 5, será realizada a 1ª semifinal, no dia 7 a 2ª Semifinal e no dia 12 a final. O Festival será transmitido, sempre pelas 21h, em www.rtp.pt/wportal/acessibilidades/gestual.

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Dina Coelho
Residente na freguesia de Bairro, é filha de pais surdos e intérprete de língua gestual portuguesa (LGP). Exerce a profissão de intérprete de LGP desde 2015, em vários contextos, mas essencialmente no âmbito educativo. É coautora do livro Por Amor e mestre em gerontologia. Atualmente pertence aos órgãos sociais da Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa (ATILGP) e da Associação de Surdos de Apoio a Surdos de Matosinhos (ASASM).