As palavras saem sem rodeios e com tom de frustração. “O nosso estádio perde em tudo. Não há nada de que eu goste, nem dos balneários, até porque vivemos em contentores.” Quem fala é Miguel Ribeiro, presidente da SAD do FC Famalicão, numa entrevista ao podcast “Primeiro Toque“, onde o dirigente abordou de forma crua a situação do Estádio Municipal de Vila Nova de Famalicão e o impasse em torno do recinto desportivo.
Para Miguel Ribeiro, o estádio é estrutural para o futuro do clube. “A questão do estádio é tão decisiva para a evolução do Famalicão como foi o centro de treinos, mas o caso do estádio será sempre uma pedra no nosso sapato”, afirmou, sublinhando que é condição essencial para o crescimento desportivo e económico da SAD.
Recorde-se que, este ano, o Famalicão conseguiu a melhor classificação de sempre na I Liga Portuguesa e, por pouco, não conseguiu acesso a uma das provas da UEFA na próxima temporada, o que seria inédito. No entanto, se a qualificação para as provas europeias se tivesse tornado realidade, o Famalicão enfrentaria um problema: a mais que provável necessidade de realizar os jogos europeus fora da cidade de Vila Nova de Famalicão, visto que o estádio municipal não reúne as condições mínimas exigidas pela UEFA.
O projeto tem história recente. Em 21 de fevereiro de 2025, o presidente da Câmara Municipal, Mário Passos, apresentou publicamente as linhas do concurso público internacional para a conceção, construção e exploração do “Estádio Municipal de Vila Nova de Famalicão – Complexo Desportivo e Empresarial”. O concurso foi formalmente lançado a 6 de março de 2025, com publicação no Diário da República e no Jornal Oficial da União Europeia.
A estratégia era conceder os terrenos onde estão implantados o atual estádio e o campo de treinos, numa área total de 85 mil metros quadrados, a um promotor privado, que ficaria responsável pela concepção, construção e exploração do complexo durante 53 anos (três para a construção e cinquenta para a exploração). O investimento estimado rondava os 24 milhões de euros, com o risco financeiro a ser integralmente assumido pelo concessionário.
Além disso, para que seja possível concretizar a ideia de ter um “edifício com o estádio dentro”, é necessário alterar a classificação dos terrenos no PDM, atualmente em processo de revisão e sem data de conclusão. A propósito da alteração do PDM, Miguel Roque, do BE, lembra que “ao alterar a classificação daquela área para Espaço Central de nível 1, que é a ocupação mais densa prevista no nosso PDM, hipoteca-se qualquer hipótese de ampliação e consolidação dos equipamentos desportivos ali existentes, uma vez que se poderá ocupar aqueles terrenos com habitação, comércio ou serviços sem qualquer restrição.”
O novo estádio teria quatro bancadas cobertas e uma lotação mínima de cerca de 10 mil lugares sentados, com zonas VIP, camarotes empresariais e familiares, tribuna de imprensa e área antidoping. O projeto previa ainda uma área multifuncional de 2.400 metros quadrados, parque de estacionamento de 7.000 metros quadrados e zona comercial de 700 metros quadrados junto ao recinto. A concessão seria em exclusividade ao FC Famalicão durante todo o período contratual.
Na apresentação do concurso, em fevereiro de 2025, Miguel Ribeiro não escondia o otimismo. “É com entusiasmo que vejo luz ao fundo do túnel. (…) Estou convencido do sucesso e podemos ficar na história”, disse o dirigente, acrescentando que o novo estádio poderia criar “uma nova centralidade” em Famalicão, à semelhança do que o Estádio do Dragão representou para o Porto ou o complexo do Alvalaxia para Lisboa.
Em novembro de 2025, com o prazo a expirar, a autarquia decidiu prorrogá-lo por mais três a quatro semanas, a pedido de potenciais candidatos. “É um concurso complexo, nunca se tinha feito a nível nacional. Estamos a falar de muitos milhões de euros. Não é só o estádio, é um complexo empresarial”, justificou Mário Passos. O autarca adiantou que já existia “um plano B” caso não surgissem interessados, sem revelar em que consistia.
O desfecho chegou em janeiro de 2026: o concurso ficou deserto. Não foi apresentada qualquer proposta. Mário Passos anunciou que se pronunciaria “em breve” sobre as próximas etapas, mas até à data desta publicação, o “plano B” não foi tornado público.
É neste contexto que as declarações de Miguel Ribeiro no “Primeiro Toque” ganham peso redobrado. O dirigente estabeleceu uma comparação direta com outros emblemas para ilustrar o impacto de um estádio na identidade e sustentabilidade de um clube: “A força do Vitória de Guimarães está muito vinculada à forma como o seu estádio cativa os adeptos, da mesma forma que o Boavista viveu muito para lá das suas capacidades porque tem uma estrutura impressionante.”
Para o presidente da SAD, o novo estádio não seria apenas uma infraestrutura desportiva, mas “um cartão de visita de Famalicão: uma estrutura capaz de criar sustentabilidade, fixar os nossos milhares de adeptos e proporcionar dinâmica ao concelho com a receção de 2.000 adeptos visitantes por jogo”. Miguel Ribeiro descreveu ainda o atual recinto como inadequado para a realidade de um clube que ambiciona ser “o quinto maior clube português”.
O atual Estádio Municipal tem capacidade para cinco mil pessoas, conta com duas bancadas, mas apenas uma coberta. É propriedade da Câmara Municipal e está entregue ao FC Famalicão. É nele que treina e joga a equipa sénior da SAD, detida pelo grupo Quantum Pacific.
Sem respostas públicas sobre o “plano B” de Mário Passos e com o dossiê parado desde o início do ano, o futuro do novo estádio de Famalicão permanece em aberto. As declarações de Miguel Ribeiro no podcast voltaram a colocar o tema em evidência, expondo a frustração da direção da SAD com uma situação que, nas suas próprias palavras, “não tem ponta por onde se lhe pegue”.
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