81 anos depois: A sombra de Hitler nos dias de hoje

Esta “nova” extrema-direita apropria-se da retórica da “liberdade de expressão” para justificar a disseminação de desinformação e discurso de ódio, enquanto, paradoxalmente, tenta silenciar vozes críticas e independentes.

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A 8 maio de 1945, o mundo celebrava o fim de um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade. A derrota da Alemanha Nazi e dos seus aliados marcou o fim de uma guerra que ceifou a vida de 60 milhões de pessoas e revelou a barbárie dos campos de concentração, onde milhões foram exterminados pela sua etnia, orientação sexual, crenças políticas ou deficiências. A memória desses tempos, como bem recordado, deveria ser uma memória militante, um alerta constante contra o racismo, a xenofobia e a desumanização. Contudo, em 2026, 81 anos após esse marco, a Europa e o mundo assistem, com preocupante celeridade, a uma reemergência de discursos e práticas que ecoam perigosamente o passado.

Os anos de 2024 a 2026 têm sido marcados por uma notável e alarmante ascensão da extrema-direita em diversas geografias. Nas eleições europeias de 2024, observou-se uma clara viragem à direita, com partidos ultranacionalistas a consolidarem a sua presença no Parlamento Europeu. E, em alguns casos, a assumirem o poder, em países como a Itália, Hungria e República Checa, ou que têm a extrema-direita no governo, como Finlândia e Eslovénia.

Na França, o Rassemblement National, liderado por Marine Le Pen e Jordan Bardella, mantém-se como uma força política dominante, capitalizando o descontentamento e atacando o que designam de “globalismo” de Bruxelas. Na Alemanha, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) tem registado crescimentos recorde em eleições regionais e sondagens federais, desafiando o panorama político tradicional.

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Globalmente, esta tendência não se restringe à Europa. Nos Estados Unidos, a estratégia de segurança nacional de Donald Trump alinha-se com o “nacional-conservadorismo” europeu, promovendo uma visão isolacionista e protecionista. Redes transnacionais de extrema-direita operam ativamente, financiando think-tanks, como o Mathias Corvinus Collegium (MCC) em Budapeste e Bruxelas, com o objetivo de desmantelar o projeto europeu e os valores liberais e progressistas que o sustentam.

Portugal não é exceção a esta onda. As eleições legislativas de 2025 testemunharam um crescimento massivo do Chega, que elegeu 60 deputados, consolidando-se como uma força central e disruptiva no Parlamento. Este resultado foi um marco na política portuguesa, alterando significativamente o equilíbrio de forças parlamentares.

Mais recentemente, nas eleições presidenciais de fevereiro de 2026, André Ventura, líder do Chega, alcançou a segunda volta, enfrentando o socialista António José Seguro. Embora Seguro tenha emergido vitorioso, a votação expressiva de Ventura, que se aproximou dos 3,5 milhões de votos no total da eleição, demonstrou uma base de apoio consolidada e em crescimento. Este desempenho histórico sublinha a capacidade da extrema-direita em Portugal de mobilizar eleitorado, explorando o ressentimento da classe baixa e média, o discurso anti-sistema e focando-se em temas como a imigração e a segurança.

Contudo, a ascensão da extrema-direita partidária é apenas uma face da moeda. Em Portugal, assiste-se também à persistência e, em alguns casos, ao recrudescimento de movimentos neonazis e ultranacionalistas, que operam na sombra, mas com uma crescente visibilidade e capacidade de ação. Grupos como o “1143” e o “Movimento Armilar Lusitano” estão sob o radar das autoridades, com investigações em curso por crimes de ódio e associação criminosa. Estes grupos, muitas vezes liderados por figuras com histórico de violência, promovem a glorificação da violência contra imigrantes, minorias étnicas e opositores políticos, utilizando as redes sociais para radicalizar e recrutar, inclusive menores e jovens adultos.

A normalização do discurso de extrema-direita no espaço político institucional serve de combustível para estes grupos, que se sentem legitimados a passar do discurso à ação. A violência política, antes marginal, ganha terreno, e o ódio deixa de ser apenas uma retórica para se materializar em atos concretos, ameaçando a coesão social e a segurança de comunidades inteiras.

O “novo fascismo” de 2026 não se manifesta necessariamente com as fardas e as marchas militares do século passado. A sua ascensão é mais subtil, operando através de algoritmos e slogans, de “grandes mentiras” disseminadas em redes sociais e meios de comunicação. A estratégia é a mesma que Joseph Goebbels, o mestre da propaganda nazi, tão bem descreveu: a simplificação da mensagem, a repetição incessante e o apelo direto às emoções do “indivíduo-massa”, em detrimento do intelecto.

Os discursos sobre “pedofilia”, “corrupção”, “racismo”, “violência policial”, ou a ideia de que “andam todos a roubar” e que “o Estado esmaga o indivíduo para favorecer aqueles”, são exemplos claros desta tática. A exploração do ressentimento da classe média, com a narrativa de que “eu mato-me a trabalhar e estes recebem sem fazer nada”, direciona a frustração para bodes expiatórios, desviando a atenção das verdadeiras causas da desigualdade social e da crise económica.

Esta “nova” extrema-direita apropria-se da retórica da “liberdade de expressão” para justificar a disseminação de desinformação e discurso de ódio, enquanto, paradoxalmente, tenta silenciar vozes críticas e independentes. A memória dos milhões de antifascistas que combateram e venceram o nazi-fascismo parece estar a ser apagada pela normalização de um discurso que, outrora, seria impensável no espaço público.

Perante este cenário, a urgência de uma memória militante torna-se mais premente do que nunca. É fundamental recordar as atrocidades cometidas pelos regimes fascistas e nazis para que tais horrores nunca se repitam. O combate ao “novo fascismo” exige uma vigilância constante e uma defesa intransigente dos valores democráticos, da solidariedade, dos serviços públicos e dos direitos humanos.

É imperativo que as forças democráticas, se unam na construção de um bloco republicano e democrático capaz de fazer frente à extrema-direita. Este bloco deve ter como pilares a defesa intransigente da Constituição da República, o reforço das instituições democráticas e a promoção de políticas que combatam as desigualdades sociais e a precariedade, que são o terreno fértil para o crescimento do extremismo. A resposta não pode ser a complacência, mas sim a construção de alternativas robustas que abordem as causas da desigualdade, promovam a justiça social e reforcem os laços comunitários. A luta antifascista deve ser institucional e de rua, combatendo a violência política com a mobilização civil e a defesa inabalável dos direitos e liberdades.

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