A idade das perguntas difíceis

Sem aviso, alguma coisa muda. Não acontece num dia específico nem vem assinalado no calendário.

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Há uma idade em que deixamos de contar os anos e começamos a contar o tempo.

Não o tempo que passou. O tempo de que nos damos conta que já passou.

Durante muitos anos, vivemos voltados para o futuro. Há estudos para concluir, trabalho para construir, filhos para criar, contas para pagar, sonhos para perseguir.

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Parece haver sempre tempo. Tempo para telefonar amanhã. Tempo para visitar na próxima semana. Tempo para dizer aquilo que ficou por dizer.

Depois, sem aviso, alguma coisa muda.

Não acontece num dia específico nem vem assinalada no calendário. Acontece devagar. Começamos a notar que os nossos pais caminham mais devagar. Que repetem histórias que já ouvimos tantas vezes. Que os amigos falam de consultas e exames com uma frequência que antes não existia. Que os filhos já não precisam da nossa mão para atravessar a rua. E percebemos que o tempo não esteve parado à nossa espera.

Continuou a passar.

Talvez seja nessa altura que surjam as perguntas difíceis.

Não as perguntas sobre a carreira, o dinheiro ou os planos para o futuro. As outras. As que não têm resposta certa.

Quanto tempo ainda teremos com aqueles que amamos?

O que fazemos com as palavras que ficaram por dizer?

Como se aprende a aceitar aquilo que não podemos mudar?

Há dias em que estas perguntas entram pela vida dentro através de uma notícia inesperada. Outras vezes, chegam pela porta de um hospital. Outras, surgem quando ouvimos a voz cansada de alguém ao telefone e percebemos, sem saber explicar porquê, que o tempo também passou por ali.

Durante muito tempo, acreditei que a maturidade consistia em acumular certezas.

Hoje penso o contrário.

Talvez a maturidade comece quando percebemos que nem tudo se resolve. Há coisas que não se resolvem; aprendemos apenas a caminhar ao lado delas.

Há perdas para as quais não existe preparação. Há ausências que continuam a sentar-se connosco à mesa muitos anos depois da partida.

E, apesar disso, a vida continua.

Não porque sejamos mais fortes do que julgávamos.

Apenas porque a vida não nos pede licença.

Com os anos, fui descobrindo que as coisas mais importantes raramente fazem barulho.

Uma conversa.

Uma visita.

Um abraço à chegada.

Uma voz conhecida do outro lado da linha.

Gestos simples que, durante muito tempo, nos parecem banais.

Até ao dia em que percebemos que eram eles que sustentavam quase tudo.

Hoje já não tenho tanta pressa de encontrar respostas.

Talvez porque o tempo me tenha ensinado que as perguntas importantes raramente se resolvem.

Aprendem-se a viver.

E talvez a maturidade comece exatamente aí: no momento em que deixamos de procurar certezas e começamos a compreender melhor as perguntas.

E tu? Tens alguma voz que queiras guardar para sempre?

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