Here we go!

Podia ter sido Fabrizio Romano a dar-nos a notícia. Não é todos os dias que uma entidade decide contratar um plantel inteiro. E se em vez de um, forem dois! Dois planteis inteirinhos de profissionais para competir no Futebol Feminino e no Futsal Masculino. Dá gosto viver em Famalicão.

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Aconteceu agora no dia 11.06.2026. Local: reunião de câmara de Vila Nova de Famalicão. Proposta 34 (pág. 969!!): ‘Apoio financeiro para Desenvolvimento Desportivo e Patrocínio Desportivo – Associação Futebol Clube de Famalicão’.

Montante: 750.000€ para o triénio (2026/2027/2028).

As peças documentais repetem-se muito, andam ali às voltas com parágrafos e mais parágrafos claramente copiados de umas para as outras, é um hosana nas alturas de argumentos e justificações todas elas muito nobres, muito altruístas. A sério, eu quase que ia às lágrimas.

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E ia mesmo: a páginas tantas, a nota informativa glorifica o alcance de «um feito histórico, a tão almejada participação numa final da Taça de Portugal.» A sério, participou? Alguém informa os serviços da câmara de que o Futebol Clube de Famalicão ganhou a Taça de Portugal Feminina? Sempre faz alguma diferença.

Mas adiante. Tomemos nota dos argumentos: que o Futebol Clube de Famalicão suporta o desporto de formação. Que o Futebol Clube de Famalicão é um instrumento na luta pela igualdade de género. Que o Futebol Clube de Famalicão promove a inclusão e a diversidade cultural. Que o Futebol Clube de Famalicão é uma entidade socialmente responsável e comprometida com o desenvolvimento da comunidade.

E lá pelo meio, esta frase lapidar: «mais do que um simples apoio financeiro, este patrocínio representa uma parceria baseada em valores…»

Tabenhe.

O que convém nunca perder de vista é que até os ‘valores’ têm um preço. Eis a conta.

A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão propõe-se financiar as actividades de duas modalidades específicas do Futebol Clube de Famalicão (clube, não confundir com a SAD): o Futebol Feminino e o Futsal Masculino.

Estamos a falar de competições séniores. Estamos a falar de competições profissionais.

Dir-me-ão: isto sempre se fez. Sei disso. A ideia, hoje como ontem, será talvez prover o clube com o fundo de maneio necessário à prossecução da sua actividade de ‘utilidade pública’. Quiçá pagar dívidas que vêm de trás. Mas ao menos mentiam-nos um bocadinho, não? Eu pelo menos habituei-me a isso. Atiram-nos com a formação e o desporto juvenil e essas coisas todas (lá está, chega a dar para chorar) e a malta finge que engole a patranha.

Depois na hora, claro, como ninguém fiscaliza coisa nenhuma, o dinheiro usa-se no que der mais jeito. No meu tempo acabavam os próprios miúdos a vender rifas para comprar as ‘botas’. Hoje o argumento não vem tão a propósito, vista a mensalidade que os paizinhos são chamados a pagar pela frequência da academia.

Têm direito a: aulas técnico-táticas, duche com água quente, banho de amor clubístico. Não têm direito a: equipamentos, transportes para a academia, transporte para os jogos.

Não deixa de ser um sinal dos tempos, porque, ao que parece, nem falando já da dita mensalidade, se o paizinho não tiver carro o Cristiano Ronaldo de Gavião e o Messi de Outiz perdem-se para a modalidade…

Para além do facto de que, hoje mais do que nunca, as academias estão desde tenra idade transformadas em linhas de montagem de jogadores, onde o resultado vence sempre. Se és bom, jogas. Se não és, vais para a bancada (nos escalões ainda não cobram bilhete, acho).

Pois pela descrição parece mais um modelo de negócio do que uma instituição de utilidade pública, não é verdade?

Agora, assim à cara podre virem a terreiro defender o financiamento público de equipas em competições profissionais? Claro está que o mais sério seria simplesmente colocar estes jogadores e jogadoras na folha de salários da câmara municipal. Já sei que seria inédito (não é o ser-se sério, é colocar atletas na folha de salários).

Interessante seria: como outras câmaras fazem o mesmo (vai ao ponto de haver quem argumente que temos de o fazer para igualarmos o que os outros fazem), criava-se o campeonato autárquico. Que tal?

Só não seria lá muito inatacável no plano dos princípios e do cumprimento da lei. Acho eu. Então faz-se o que se fez sempre: um contrato-programa. À razão de 250.000€ por ano, com 50.000€ adstritos a investimento em infraestruturas desportivas.

Esta da parcela adstrita a investimento é um pormenor de classe. O que significa: 200.000€ por ano ficam livres para serem administrados de acordo com o superior interesse do clube. E estará bem, visto que o clube promove o desporto de formação, a igualdade de género, a diversidade cultural e o desenvolvimento da comunidade.

Mas atenção, há aqui uma contrapartida! (para além da promoção do desporto de formação, da igualdade de género, da diversidade cultural e do desenvolvimento da comunidade). É que as camisolas oficiais passarão a ostentar a insígnia do município! Porquê? Porque assim se garante uma maior exposição mediática do concelho, coisa muito cara aos ilustres eleitos na nossa vereação.

É de génio: um clube comummente designado por ‘Famalicão’, que todos os comentadores, adeptos e jornalistas tratam genericamente por ‘Famalicão’, trará nas suas camisolas o patrocínio oficial da autarquia. E assim se garante que, mesmo aquelas pessoas muito, mas mesmo muito, distraídas, não consigam (mesmo querendo muito) deixar de notar que quem ali está a competir é uma equipa de Famalicão.

Posto isto, foi a proposta do executivo municipal submetida à votação em reunião de câmara e o que é que os digníssimos partidos da oposição lá representados fizeram?

O PS votou a favor.

O Chega votou a favor.

Perguntas, alguma? Nenhuma. E viesse a proposta seguinte, que se fazia tarde.

Temos, portanto, que no Portugal de 2026 vereadores eleitos acham normalíssimo que dinheiro público financie desporto profissional. Volto a repetir: nenhuma pergunta. Nenhum pedido de esclarecimento. Nenhum pedido de fundamentação. Em cinco minutos de reunião ‘deslargam-se’ 750.000€ com bonomia e sentido de serviço cívico.

Eis o mistério do regabofe do Estado: os políticos em geral fogem de pânico de cada vez que é precioso enfrentar alguma ‘força viva’. À mínima suspeita de uma qualquer potencial insatisfação, ei-los a cavalgar a onda do populismo. Resultado: todos os que se mexem têm direito ao seu quinhão e é à custa do orçamento de Estado. Menos o contribuinte que há em nós: esse perde sempre.

Sabem porquê? Porque mexe-se pouco. O contribuinte português fala muito, mas na hora da verdade cala. Prefere calar.

Mas voltando à votação na reunião de câmara. Eu do PS já não espero muito. Anda o Eduardo Oliveira ocupado a fazer vídeos delicodoces sobre as Antoninas para publicar nas redes sociais. Não é ser narcisista: é precisar muito que o validem.

E o Chega? Bem, o Chega não consegue desiludir-me porque nunca tive quaisquer ilusões a esse respeito. A encontrar bodes expiatórios para as nossas faltas enquanto sociedade sim, são óptimos. Em tudo o resto, sobretudo quando implica trabalho sério, dever de escrutínio e rigor de análise, são de uma nulidade total.

Quanto à restante oposição que não está representada na vereação, que eu tenha visto apenas a IL se manifestou, de uma certa forma cáustica. Presumo que não concorde (mas também, ao contrário do que lhe é habitual, foi muito pouco vocal nesta matéria). Dos outros não vi nada, pode ser que o problema seja meu.

Ou seja, com muito poucas excepções, que devem mais a personalidades individuais do que a programas políticos, o espectro partidário geralmente concorda com este estado de coisas ou, quando muito, assobia para o lado. Percebo: são questões problemáticas, que indispõem muitas pessoas. É uma chatice. Quem é que vai querer comprar uma guerra com o clube de futebol mais representativo do concelho? Estes líderes fracos e desprovidos de convicções não serão, com toda a certeza.

Nem vou aqui listar a quantidade de coisas que se podem fazer com 750.000€ – entre as quais, apoiar o desporto de formação (que não o desporto profissional). Limito-me a lembrar um único exemplo: a criação de um fundo de emergência municipal, no valor de 1.000.000€, para acudir a catástrofes naturais, foi chumbado pela maioria PSD/CDS em Novembro último. Foi o PS quem o propôs e o Chega absteve-se na votação.

Quando um dia, se chegarmos a isso e oxalá não, tivermos uma catástrofe natural de grandes proporções em Famalicão, executivo e oposição em uníssono exigirão do governo central o apoio logístico e financeiro que nos é devido (e é). E não se coibirão de dizer que o município não tem recursos para poder acudir a essas tragédias.

Mas este género de populismo avulso é bem o indício da incapacidade que o nosso país tem para ‘reformar-se’. Ninguém quer reformar coisa nenhuma, muito menos desmamar do Estado. O poder autárquico em destacadíssimo lugar: hoje por hoje, é como um cancro que se agarrou ao nervo do tecido social do país. É caríssimo e faz-se de caro: cobra-se em bajulações e favorecimentos. E o que nos dá em troca são sobretudo futilidades e entretenimentos. Devíamos começar a cobrar-lhes pela ineficiência, mas aí o problema é mais difícil ainda, porque rapidamente se percebe que o verdadeiro problema somos nós.

Nós é que os elegemos. Nós é que os deixamos ser assim.

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