Camilo, as freiras e os abadessados

Num século XIX em que a Igreja exercia profunda influência social, Camilo manteve uma relação próxima com o mundo monástico. Revelou-se mesmo um observador informado da realidade concreta dos mosteiros, sobretudo dos conventos femininos…

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Nos dias 2 e 16 de junho, a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, acolheu, na Casa dos Caseiros, um curso livre, aberto a todos os interessados, dedicado a Camilo e às suas vivências monásticas e “freiráticas”.

Organizado em duas sessões, o curso propôs uma reflexão sobre a relação de Camilo com o universo conventual e monástico, que o escritor conheceu de perto. O interesse suscitado pela iniciativa mostrou como este tema, menos habitual nos estudos camilianos, cruza literatura, história e cultura e continua a mobilizar o público. A prova esteve nas mais de 40 pessoas inscritas.

Ao longo das sessões, destacou-se a presença de Camilo no universo dos “abadessados” ou outeiros, bem como nas redes de sociabilidade, afetos, intrigas e cumplicidades que se desenvolviam nestes espaços conventuais.

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A iniciativa culmina no próximo sábado, 20 de junho, nos jardins da Casa de Camilo, com a recriação de um abadessado: uma tarde aberta à comunidade, com versos, vinho, licores e doces, evocando um ambiente onde memória, tradição e a figura de Camilo se cruzam.

A recriação envolve também produtores vitivinícolas da região, como a Vinevinu, dedicada ao Alvarinho em diferentes “terroirs”, e a Adega Casa da Torre, herdeira de uma longa tradição familiar. A estes juntam-se o licor de Singeverga e doçaria conventual de várias comunidades religiosas da região. A palavra terá igualmente lugar central, com a declamação de versos por Aurelino Costa, reforçando a dimensão literária da evocação.

CONTEXTO CONVENTUAL DO SÉCULO XIX

Para compreender o sentido destas práticas, importa situá-las no contexto conventual do século XIX, cenário indispensável para perceber a singularidade dos “abadessados”, que tinham lugar em conventos femininos e nos quais Camilo participou, deixando deles memória na sua obra.

Num tempo em que a Igreja exercia profunda influência sobre a vida coletiva, Camilo manteve uma relação próxima com o mundo monástico, tanto por ligações pessoais como pela sua observação crítica da sociedade. Entre os episódios mais referidos está a relação com Isabel Vaz Mourão, religiosa do Convento de São Bento de Avé-Maria, um dos mosteiros femininos mais importantes da cidade do Porto.

O seu interesse por estas matérias apoiava-se também em leituras sólidas sobre vida religiosa e ordens monásticas. Mais do que leitor atento, Camilo revelou-se observador informado da realidade concreta dos mosteiros, sobretudo dos conventos femininos ainda existentes no Porto na segunda metade do século XIX.

O seu olhar, simultaneamente curioso e crítico, permitiu-lhe captar não apenas os rituais e práticas quotidianas, mas também as tensões e ambiguidades de um universo conventual onde a disciplina espiritual convivia, em amiúde, com questões bem mundanas.

A EXTINÇÃO DOS CONVENTOS FEMININOS

Os conventos femininos em Portugal foram profundamente afetados pelo triunfo liberal. O decreto de 30 de maio de 1834, de Joaquim António de Aguiar, o célebre “mata-frades”, extinguiu as ordens religiosas regulares. No caso feminino, porém, o processo foi mais lento: as freiras puderam permanecer até à morte da última religiosa, embora ficasse proibida a entrada de noviças.

Esta medida condenou os conventos a uma extinção gradual. À medida que o número de religiosas diminuía, rareavam também os recursos. Algumas comunidades encontraram na doçaria uma forma de sustento; outras resistiram por mais tempo graças à sua dimensão e composição etária. Ainda assim, o panorama geral foi de lento declínio.

Na década de 1880, as notícias sobre a morte das últimas freiras tornaram-se frequentes. Em 1888, o diário portuense “O Primeiro de Janeiro” registava a existência de apenas 102 religiosas nos conventos portugueses, número revelador da fase terminal deste processo.

Foi esta realidade que Camilo conheceu no Porto e que transportou para a sua obra. Em “Amor de Perdição”, por exemplo, evoca o convento da Madre de Deus de Monchique como espaço de clausura e punição. Noutras obras, como “Carlota Ângela” ou “A Bruxa de Monte Córdova”, usa o convento para criticar intrigas, vícios e tensões da vida religiosa.

Importa, contudo, lembrar que a clausura nem sempre resultava de vocação. Muitas mulheres entravam no convento por imposição familiar, conveniência social ou necessidade económica. Para algumas, era a única forma de manter estatuto; para outras, podia representar uma margem relativa de autonomia num mundo dominado pela autoridade paterna ou marital.

Por isso, os conventos não eram apenas espaços de recolhimento e fé: funcionavam também como microcosmos sociais onde se cruzavam interesses familiares, estratégias sociais, práticas culturais e, por vezes, relações amorosas. Neles havia manifestações poéticas, musicais e teatrais, algumas organizadas pelas próprias freiras.

Foi neste quadro que ganhou força, sobretudo a partir do século XVIII, a imagem da “freira libertina” e a figura do “freirático”, o frequentador de conventos femininos. As visitas a estes espaços, mesmo quando criticadas ou satirizadas, persistiram ao longo dos séculos XVIII e XIX.

CAMILO, O FREQUENTADOR DE ABADESSADOS

Os “abadessados” eram serões culturais e saraus poéticos associados à eleição ou reeleição de uma nova abadessa. Realizavam-se nos pátios dos conventos, começavam ao final da tarde e prolongavam-se pela noite, com versos, música, vinhos, licores e doces. Reuniam familiares, amigos, estudantes, clérigos, poetas e figuras da sociedade.

Camilo terá sido frequentador assíduo destes encontros. No “Cancioneiro Alegre de Poetas”, refere um abadessado no Convento de Santa Clara, em 1844, e descreve, com ironia, a troca de décimas por vinho e pastéis. Em “Horas de Paz”, evoca estes eventos para satirizar os “poetastros de mau gosto” e sugerir maior recato nas celebrações.

A presença do escritor nestes encontros é também referida noutras fontes, como no abadessado de 1850, em São Bento de Avé-Maria, ligado à reeleição de D. Ana Delfina de Andrade, e em notícias do “Jornal do Porto” de 1859. O seu nome surge ainda associado a episódios posteriores, o que confirma a sua proximidade continuada a este universo conventual.

Depois deste percurso, torna-se mais claro o que foram os “abadessados” ou outeiros e por que razão eles ajudam a compreender melhor Camilo Castelo Branco, a sociedade do seu tempo e a complexa relação entre clausura, sociabilidade e criação literária.

Sábado, 20 de junho, a partir das 15h, a Casa de Camilo convida o público a reencontrar esse universo nos jardins de Seide, numa evocação em que a história, a literatura e a tradição se entrelaçam.

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