O barulho que nos está a apagar

A felicidade parece fabricada. Até a autenticidade já soa ensaiada. E nunca foi tão fácil tornar-se invisível à vista de todos.

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O mundo nunca teve tanta gente ligada e tão pouca gente verdadeiramente presente.

Há pessoas que já não conseguem estar em silêncio sem sentirem culpa.

Não é exagero. É hábito.

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Fomos ensinados a responder depressa, a produzir depressa, a opinar depressa, a recuperar depressa. Há sempre qualquer coisa para ocupar o vazio: um vídeo, uma notícia, uma indignação nova, um podcast sobre produtividade, uma aplicação para dormir melhor depois de um dia inteiro a viver pior.

E, no meio disto tudo, aconteceu uma coisa estranha: deixámos de ter vida interior.

Reagimos a tudo. Pensamos cada vez menos.

Aquele lugar onde uma pessoa pensa antes de falar, sente antes de mostrar, duvida antes de atacar — esse lugar está a desaparecer.

Entramos num café e vemos quatro pessoas em silêncio absoluto, cada uma iluminada pelo seu ecrã. Chamamos a isto companhia.

Nota-se nas conversas.

Já ninguém ouve para compreender. Ouvem para responder. Para corrigir. Para vencer. Para preparar mentalmente uma resposta antes de o outro terminar a frase.

Estamos tão ocupados a reagir que já quase ninguém escuta até ao fim.

Nota-se nas relações.

As pessoas querem presença sem disponibilidade. Intimidade sem tempo. Amor sem interrupção da rotina. Querem tudo sem terem de abdicar de nada.

Nota-se até no cansaço.

Já ninguém descansa verdadeiramente. Limitamo-nos a trocar um cansaço por outro.

O problema é que o excesso de ruído não cria pessoas mais informadas. Cria pessoas mais cansadas, mais irritadas, mais superficiais e, por isso mesmo, mais fáceis de manipular.

Uma sociedade permanentemente distraída perde profundidade moral. E, quando perde profundidade moral, começa a tratar tudo da mesma maneira: uma guerra, um divórcio, uma tragédia, um escândalo político ou a fotografia do jantar de alguém. Tudo passa no mesmo ecrã. Tudo dura o mesmo tempo. Tudo disputa a mesma migalha de atenção.

E aquilo que disputa atenção acaba, inevitavelmente, por se intensificar para sobreviver.

Talvez seja por isso que hoje quase tudo parece encenado.

A revolta parece encenada.

A felicidade parece fabricada.

Até a autenticidade já soa ensaiada.

Vivemos numa época em que as pessoas mostram tudo e revelam cada vez menos.

Há dias em que isto se sente de forma quase física. Casais passam o jantar inteiro a olhar para os telemóveis. Amigos interrompem-se para responder a notificações. Crianças habituam-se, desde cedo, à sensação de competir com um ecrã pela atenção dos adultos.

E depois admiramo-nos da solidão.

Mas a solidão não nasce apenas da ausência de pessoas.

Nasce da ausência de presença.

Talvez o mais assustador seja perceber que nos estamos, lentamente, a habituar a esta forma incompleta de viver. Como se fosse normal não conseguir ler um livro sem pegar no telemóvel. Como se fosse inevitável não conseguir pensar sem ruído de fundo. Como se estar permanentemente cansado fosse apenas o preço moderno de existir.

Mas não é.

Uma vida humana não foi feita para esta velocidade emocional.

Nenhum coração foi feito para receber o sofrimento do mundo inteiro antes do pequeno-almoço.

Talvez, hoje, resistir comece simplesmente por desligar.

Demorar.

Ouvir até ao fim.

Voltar a conseguir estar sentado sem precisar de ruído constante.

Voltar a pensar sem plateia.

Voltar a viver coisas que não precisam de ser mostradas para existirem.

Porque há uma diferença enorme entre estar ligado ao mundo e perder-se de si próprio.

E nunca foi tão fácil tornar-se invisível à vista de todos.

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