Desgraças e misérias em torno de Camilo

A cultura à deriva com decisões irracionais, injustificadas e indignas por parte da Câmara Municipal de Famalicão em torno de Camilo e da sua Casa-Museu em Ceide. Uma Câmara que nos matraquilha diariamente com as suas conquistas, façanhas e bacoquices…

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Se o autor do imortal Dom Quixote ou Shakespeare celebraram ainda há pouco os seus 400 anos de seu nascimento e mesmo Dante, Gama e Colombo, Mozart ou Beethoven… também o fizemos recentemente com o génio imortal de Camões, um dos maiores épicos do Mundo, segundo o insuspeito Ezra Pound e mais recentemente com Garret, Eça e Camilo, Amadeu Sousa Cardoso, Ravel ou Júlio Pomar… entre outros muitos talentosos criadores que os temos felizmente nos mais diversos domínios dos saberes e das artes.

E relembro que aquela efeméride e famigerada comemoração do tricentenário em 1880 à volta de Camões foi envolta em polémicas mil por todo um conjunto de forças e grupos sociais desde os homens do antigo regime aos republicanos que cresciam como erva, medrados ao calor das ideias de movimentos internacionalistas, dos homens da geração de 70 para além dos Vencidos da Vida e um sem número de academias, tertúlias literárias, cenáculos e quejandos que brotavam por todo o lado, enquanto Camilo, em Ceide, publicava aprofundado estudo sobre o nosso épico como que informando que não escrevia apenas romances e novelas, mas estava em cima dos grandes acontecimentos.

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E claro que não aceitarei nunca o programa, bem medíocre por certo, que os intelectualóides do burgo maquinaram a desoras para celebrar tão pauperrimamente aquela data do bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-2025) e fazer de conta que houve festa e foguetes… eles que são festivaleiros por tudo e nada… malbaratando recursos e demorando as soluções nos assuntos e problemas que interessam verdadeiramente aos famalicenses por ausência de ideias e projetos.

Outras terras e cidades houve e nem sequer pertencendo a uma nado-morta Associação de cidades camilianas criada há anos que exibiram e votaram por muito mais culto ao Mestre e entre nós nada se faz para a ressuscitar e dinamizar a sua dedicação ao Escritor. Como se diz entre nós… dá Deus as nozes a quem não tem dentes… que as preocupações diárias, interesses pessoais e objetivos da governação são outros que não os famalicenses mais carenciados, as pequenas e médias empresas, creche para as crianças ou mesmo o acompanhamento decente e humano dos imigrantes.

UM PROGRAMA SEM NÍVEL NACIONAL

Não fora o brasileiro Pinheiro Alves de torna-viagem e Ana Plácido e nunca seríamos os felizes contemplados com a vinda do génio de Camilo para Ceide, sismo terráqueo que abalaria as terras de Famalicão até hoje a par da recriação do concelho por D. Maria II, em 1835, dependente por séculos dos senhorios de Barcelos e Guimarães, aqui produzindo não só a maior como a melhor arte literária do Portugal moderno e recriando mesmo novas formas literárias, aqui jogando a sua vida e talento… como muito bem sublinhou Alberto Moravia em visita realizada a Ceide, em 1983… maldizendo o sítio porque lúgubre e pobre, facilmente conduzindo ao suicídio, o que não é bem o caso como sabemos, pelas circunstâncias e vivências de Camilo.

O Presidente da República Mário Soares no Centenário do Nascimento de Camilo Castelo Branco em 29 de junho de 1991

Para além da falta de um programa de nível nacional e robusto no mundo da língua portuguesa, na linha daquele que comandou os acontecimentos e a comemoração do centenário de sua morte em 1990, não fora ele um dos nossos maiores geniais criadores, e para além da falta de participação das escolas em massa e comunidade, ausência de iniciativas tipo jornal do bicentenário e concursos de índole e participação popular.

E lembraria, por outro lado, a presença do Presidente Mário Soares e de Eduardo Lourenço no terreiro que antecede a Casa como a conferência internacional que se fez na Universidade de Salamanca, precisamente na sala que foi de seu reitor Dom Miguel de Unamuno e grande admirador de Portugal e portugueses como Junqueiro, Pascoais ou Laranjeira para além de escrever que a melhor maneira de conhecer Portugal e os portugueses era de comboio e através da leitura das obras de Camilo.

A MORTE DO BOLETIM DA CASA DE CAMILO

Mas… ilustremos o que dizemos com os seguintes acontecimentos. O primeiro gesto intolerável e funesto com que a Câmara Municipal de Famalicão iniciou os festejos foi cruel e inexplicável pela morte anunciada e confirmada do histórico Boletim da Casa de Camilo e que todos os adoradores e alfarrabistas conhecem pela procura desta preciosidade literária. A publicação iniciada por Pinheiro Torres na década de 1960 constituía um orgulho difícil de igualar com qualquer outro escritor para além do escol apertado de colaboradores que todos os diretores honraram como Benjamim Salgado, Manuel Simões, Aníbal Pinto de Castro e José Manuel Oliveira.

O seu desaparecimento sem boas razões é mais que uma vergonha que se prolonga desde 2016, ignorando eu que maior joia de relevo cultural tenhamos entre nós… sortudos bem necessitados de autocrítica neste domínio e que um cadinho dos badalados 256 milhões de euros do orçamento anual poderia reerguer e ressuscitar que… “noblesse oblige!”… o Mestre de Ceide aprovaria certamente, bastando reduzir o Boletim Municipal da propaganda pessoal do Presidente para um terço… que o dinheiro aparece sempre.

DA ACÁCIA DO JORGE AO PRÉMIO DE CONTO…

Depois, depois… a terceira tragédia naquela casa assombrada depois da morte de seu inquilino e posterior incêndio em 1915… a morte da acácia do Jorge na manhã do dia 18 de novembro de 2024… resistente até ali a todos temporais e pragas mas os seus patrões não renovaram o contrato.

Inqualificável e sem palavras porque as perdi na visita que fiz ao local… e claro que a explicação ficou para as calendas gregas… compreendemos, mas não aceitamos porque como uma pessoa de idade de há muito vinha sendo objeto de atenção e cuidados paliativos. A procissão das celebrações versus atrocidades ainda não chegou a meio e o protocolo histórico e quase pioneiro que houvera “in illo tempore” com a Associação Portuguesa de Escritores (APE) foi brutalmente terminado, ignorando-se as razões.

Outra lança em África e de invulgar prestígio nacional para o Mestre e de que revertia muita mas muita espuma para o Município que o tutelava, um dos prémios literários mais prestigiados no mundo da língua portuguesa e igualmente ceifado sem explicações. Falta de dinheiro não seria, certamente e não iria além de uma… “recularia”. Que aconteceu então?…

A EXONERAÇÃO DE JOSÉ MANUEL OLIVEIRA

Com todo este rosário de desgraças e misérias, irracionais, injustificadas e indignas por parte de uma Câmara Municipal no século XXI e que nos matraquilha diariamente com as suas conquistas, façanhas e bacoquices e vulgaridades de coisa nenhuma a não ser a conhecida máquina de propaganda bem timoneada por um excelentíssimo senhor professor doutor… e como isto não chegasse para esgotar a nossa paciência… foi exonerado o seu diretor José Manuel Oliveira, antes da efeméride, depois de tantos anos de dedicação e de competências recomendadas e firmadas pelos seus mestres, Manuel Simões e Aníbal Pinto de Castro, sem que alguém suspeite sequer de razões que possam ter originado e explicar tal acontecimento inaudito porque indecente e acéfalo, que isto não se faz!… e sem explicações é só prepotência incompreensível porque não explicada… e em democracia devemos explicações uns aos outros ou, então, não passa de um tiraninho que sonha ser tirano quando for grande ou, então… de uma vil comédia.

E nem escrevo mais… pela revolta e indignação que tudo isto me provoca… ausência de ambição, planeamento e projetos, nós que em breve nos agigantaremos mais, acolheremos mais empresas e receberemos mais pessoas e crianças… caso para rematar com aquilo que chegou até nós pela história e atirado sobre gente pior que aquilo que os bárbaros teriam feito, algo assim como… quod non fecerunt barbari… fecerunt barbari… passini…

Não entendo nada disto: tanto milhão, tanto ranking e tanta internet… e um Nabucodonosor omnipotente, autocrata e que fala só à frente do nosso destino comum!… Em 1985 recebia Portugal inteiro 1 milhão de contos por dia e hoje só o concelho de Vila Nova de Famalicão recebe 1 milhão de euros por dia… se lhe tirarmos os fins de semana. Miséria mesmo por tanto que há em aberto e para fazer… pela paciência que temos de ter para suportar tanta mediocridade, presunção e vacuidade por mais umas temporadas… que esta nossa Terra merecia mesmo muito melhor pois que, como desde sempre está escrito… ninguém dá o que não tem!

 

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