Portugal encontra-se num momento decisivo da sua história climática. Aquilo que durante anos tratámos como exceção — incêndios devastadores, ondas de calor extremas, secas prolongadas alternadas com chuvas intensas — tornou-se parte do nosso quotidiano. Já não falamos de cenários futuros. Falamos do presente.
Os dados confirmam o que sentimos na pele. O ano de 2024 foi o quarto mais quente desde 1931 em Portugal, com uma temperatura média cerca de 1 °C acima da média do período 1981–2010. Registaram-se oito ondas de calor no território continental e centenas de dias sob condições de calor extremo. A ciência explica-nos que uma atmosfera mais quente retém mais vapor de água, aumentando a probabilidade de episódios de precipitação intensa concentrados em curtos períodos. E é precisamente isso que estamos a viver.
Nas últimas semanas, a sucessão de tempestades — Kristin, Leonardo e Marta — trouxe chuva intensa, ventos fortes e cheias generalizadas. Casas inundadas, ruas transformadas em rios, campos agrícolas submersos, quedas de árvores, cortes de estrada e falhas no fornecimento de eletricidade e comunicações.
Em regiões como Coimbra, Leiria, Santarém e Vale do Tejo, milhares de pessoas foram desalojadas ou evacuadas. Infraestruturas essenciais sofreram danos severos e há registos de vítimas mortais e feridos. O Governo declarou e prolongou a situação de calamidade em dezenas de concelhos, mobilizando recursos de emergência e apoios às populações afetadas. Mas, para quem perdeu bens, segurança ou entes queridos, a dimensão da crise vai muito além dos decretos oficiais.
Este cenário não traduz apenas um episódio isolado de instabilidade atmosférica. Evidencia vulnerabilidades estruturais que se acumulam há anos. Muitos cursos de água transbordaram e sistemas de drenagem urbana revelaram-se insuficientes perante a intensidade da precipitação. A impermeabilização excessiva dos solos, o desordenamento do território e a falta de adaptação das infraestruturas amplificam os impactos.
Não podemos continuar a tratar estes acontecimentos como fatalidades imprevisíveis. Cada nova tempestade expõe fragilidades que já conhecemos — e que sucessivos relatórios científicos têm vindo a alertar.
A ciência climática é clara: fenómenos extremos como secas severas, ondas de calor prolongadas, incêndios de grande escala e precipitação intensa são hoje mais prováveis e mais intensos do que seriam num clima pré-industrial. Estes eventos não surgem isoladamente. Acumulam-se, reforçam-se mutuamente e ampliam a vulnerabilidade do território.
Portugal é particularmente sensível a esta nova realidade. Em 2025, o país viveu uma das épocas de incêndios mais graves das últimas décadas, com cerca de 280 mil hectares ardidos — mais de 3 % do território nacional. A combinação de secas prolongadas, temperaturas elevadas e abandono de áreas rurais cria condições ideais para fogos florestais de grande dimensão. E, paradoxalmente, as áreas ardidas tornam-se depois mais vulneráveis a cheias e deslizamentos de terras, devido à perda de vegetação e à redução da capacidade de absorção dos solos.
Nas cidades, o problema assume outra forma. A impermeabilização excessiva e sistemas de drenagem desajustados à nova intensidade da precipitação transformam episódios de chuva extrema em inundações repentinas, com impactos diretos em habitações, comércio e serviços essenciais.
A perceção pública acompanha esta realidade. Segundo o inquérito sobre o Clima, no ano de 2024, do Banco de Investimento Europeu, 99 % dos portugueses reconhecem a necessidade de adaptação às alterações climáticas e 66 % consideram-na uma prioridade nacional. A maioria afirma já ter experienciado eventos extremos nos últimos anos. A consciência existe. O que falta é transformar essa consciência em ação consistente e estruturada.
É ilusório pensar que podemos continuar a reagir apenas depois da catástrofe. Não basta mobilizar meios quando a água já entrou pelas casas ou quando o fogo já consumiu milhares de hectares. A adaptação climática tem de deixar de ser um complemento das políticas públicas e passar a ser um eixo central do planeamento nacional e local.
Isso implica integrar a ciência nas decisões, requalificar linhas de água, investir em infraestruturas resilientes, proteger solos, apoiar comunidades vulneráveis e reforçar a educação ambiental. Implica também transparência na utilização de fundos e continuidade nas políticas — porque o clima não espera por ciclos eleitorais.
As alterações climáticas já estão a moldar o nosso presente e irão definir, em grande medida, o nosso futuro coletivo. Podemos escolher ser apenas um país que reage aos desastres — ou um país que antecipa riscos, protege pessoas e planeia com responsabilidade.
A questão já não é se Portugal é vulnerável. É se estamos dispostos a agir com a urgência que a realidade exige.
Porque cada incêndio, cada cheia e cada onda de calor não são apenas fenómenos naturais. São testes à nossa capacidade de cuidar do território que partilhamos — e das pessoas que nele vivem.
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