Aqui há atrasado escrevi numa destas crónicas que Portugal é um exemplo vívido do barroco tardio. Temos, por assim dizer, uma predileção pelo rebuscado, não há volta a dar: está-nos na massa do sangue. Um atavismo que, por mais ultrapassado, perdura em nós através dos séculos.
E quem diz rebuscado, diz floreados. Somos absolutamente obcecados em adornar o ramalhete. A privilegiar o acessório, o fútil, o desnecessário. Má sorte termos nascido assim.
Não é só a absoluta burocracia no trato, que entre o tu, o você, o senhor e o doutor torna qualquer conversação numa tortura meditativa e basbaque. Uma consumição de energias autodegenerativas…
Não é só a reverência néscia por tudo o que seja doutor palavroso – depois queixam-se que proliferem como nabos no batatal. Também nas referências culturais que escolhemos para nos representar, e senão veja-se: quem são os nossos maiores? Saramago. Manuel de Oliveira. Paula Rego. You name it.
Ele é com cada barroco que uma pessoa acaba a dançar o fandango às arrecuas. Mas ninguém diga que vai o rei nu: acaba defenestrado pela massa anódina e bem-pensante – que por sinal não os lê e não os vê. Admira só, e basta.
Depois existe o burlesco. Nisso esmeramo-nos, porque não há conseguimento mais sublime do que assistir placidamente à mescla do barroco que há em nós com o prosaico que se esbarra contra nós. Algo assim como o fado e o pimba, a ver o que dali sai.
E é que nem de propósito, a mais recente reunião de câmara? Apresenta o executivo um ‘pacote’ de medidas do foro da proteção civil, e está tudo certo – é só a nossa câmara a não querer destoar do ar do tempo.
Mas lá pelo meio, o que vem? Uma estátua ao bombeiro!
É extraordinário. Estão os famalicenses bem entregues, e isto antes mesmo das fotos de colete laranja dos nossos ilustres que a seu tempo nos entrarão pela casa adentro via boletim municipal. Repare-se na presciência dos nossos eleitos: contra as chuvas torrenciais que hão de vir, contra os fogos incontrolados que hão de vir, o que é que a vereação desde já preconiza? Um monumento evocativo ao soldado da paz.
E não apenas preconiza: financia. São noventa mil do nosso erário a transformar proximamente numa liga metálica que haverá de afagar o ego nunca suficientemente bajulado dos nossos bombeiros. E na falta de equipamentos, ou instalações, ou apoios às famílias dos caídos em acção, ficamo-nos pela vaidade inconfessa. É mais rápido. Indolor. Inócuo também.
Agora: sobre planeamento urbanístico? Limpeza de florestas? Impermeabilização dos solos? Não sobra muito tempo para tratar disso.
Já sei: vão dizer-me que noventa mil euros não fazem a diferença na prevenção de emergências civis… Como se isso fosse argumento. Se isso fosse argumento, tenho a dizer, se estamos prontos a aceitar como válido e adequado que o dinheiro existe e abunda para ser aplicado em qualquer capricho por mais estapafúrdio e é à vontade do freguês, eu desde já me adianto à concorrência: tenho uma lista pessoalíssima de necessidades e aspirações, todas elas melhores do que as vossas. Até porque são minhas.
E quanto a fazerem diferença, os tais noventa mil euros, será que não? Repare-se: estamos a falar do mesmo executivo que, há um mês atrás, reprovou a proposta da oposição para criar um fundo de emergência municipal que pudesse acudir às populações afectadas por catástrofes naturais – como aconteceu com as cheias em Ribeirão em novembro último.
Para o fundo de emergência municipal não havia dinheiro. Para uma estátua, sim. Está tudo dito.
Ou não, não está tudo dito. Porque nunca será demais dizê-lo: o voluntariado não se recompensa com palavras vãs. Nem com monumentos. Para estar à altura de gestos nobres, da abnegação, do estoicismo e heroísmo de uns poucos que se sacrificam em prol do bem comum, deve começar-se pelo mais básico dos básicos, que é levar essas pessoas a sério. Tratá-los com respeito, zelando por que, no desempenho da sua missão, não lhes falte nada do que estiver ao nosso alcance providenciar-lhes. Nem faltar aos seus, quando o pior sobrevém.
Tudo menos o fácil: o fácil é enviar outros para o matadouro e depois chorar por tamanha carnificina. Para hipocrisias já bastava o outro a querer apagar incêndios com raminhos.
E se vos pareceu que a oposição está contra, fiquem sabendo que só em parte. O PS votou contra, sim. Mas o Chega acha bem. Faz sentido. O Chega é muito de passar a mão pelo pêlo aos portugueses, e ai de quem! Os portugueses são o máximo! Os de bem, pelo menos – onde se incluem os bombeiros, há dúvidas?
Eu, que tenho dois homens na minha vida – todo o santo dia, desde há meses e meses, levo com o venturoso e o nosso novel vereador, plasmados como eles estão, no outdoor da Avenida Marechal Humberto Delgado, a dizer ‘Famalicão em acção’, e não há quem ao menos lhes diga que as eleições já se foram há muito e agora todos nós queremos o merecido descanso? –, ainda um dia gostaria de perguntar ao dito vereador qual é a dele com o Passos e companhia.
Dizia que ia ser disruptivo; dizia que era só começar a mostrar serviço quando vereador e caíam-lhe os eleitores nos braços como virgens finalmente rendidas; bem, começou por se abster na votação do orçamento municipal.
Não que tivesse de votar contra. Nem a favor. Absteve-se, ok. Mas porquê? Conclui-se então que o orçamento não era mauzinho (nem bonzinho)? Gostava de saber.
Depois continuou a primar pelo silêncio cúmplice em todas as questões que vão aflorando, veja-se o caso do novo boletim municipal tresmalhado de jornal: o que é que se ofereceu dizer ao Chega? Meia dúzia de lugares-comuns e salomoníadas de quem quer contentar todos ao mesmo tempo.
E portanto. Como é que hei de dizer isto sem ser deselegante? Talvez desta forma: não estou impressionado. Sim, claro: ser um reles esquerdalho não ajuda. Mas ainda assim, ainda assim. Já vai quase meio ano. Ainda esta semana foi noticiado que o agora presidente da junta de freguesia de Vila Nova de Famalicão e Calendário está a ser julgado no tribunal de Braga num processo em que é acusado de ‘recebimento indevido de vantagem’ em 2015, quando era só o vice-presidente da câmara. O Chega? Aos costumes disse nada. Logo o Chega que é o indisputado campeão mundial da luta contra a corrupção. Estranho.
Pois é isso. Uma coisa sabemos: o Chega é a favor da proliferação de estátuas, para esses elevados propósitos não chora o dinheiro que nos cobram em impostos.
E se acham que isto está bem assim, fiquem sabendo que ainda melhora: é que já temos uma estátua ao bombeiro em Vila Nova de Famalicão. Não chegava? Parece que não. Começa logo porque a que já existe tem dois defeitos substantivos e incontornáveis: um é que já foi inaugurada, lá muito atrás, nos idos de 1985. Não quer dizer que não se pudesse inaugurar outra vez uma estátua pré-existente, já se viram coisas mais estranhas na nossa terra. Mas que ficava esquisito, ficava…

O outro defeito da estátua que já existe é que está para lá escondida no Parque 1º de Maio (vulgo ‘rotunda’). Ainda por cima não é bem, bem, uma rotunda: é (como diz o nome) um parque. Muitas vezes lá joguei à bola e deitei os olhos a raparigas distraídas da sorte que tinham. Mas é tudo: sobra uma toada bucólica das copas altas das árvores e da revoada de pássaros que lá fazem ninho.
Não dá: o ego dos nossos bombeiros merece mais. Muito mais. Nomeadamente: uma rotunda daquelas mesmo a sério, por onde circulem carros todos os dias. E é da maneira que condutores e passageiros podem reverenciar a figura do bombeiro. Dá para bater continência e tudo.
Isto nem original é. Veja-se como um dos nossos mais excelsos conterrâneos, quando se decidiu a agraciar Famalicão com uma fundação que levava o seu próprio nome, também não fez por menos: tinha de a atravancar no meio da praça principal da cidade. E para sempre ficamos com aquela encomenda no mais central do nosso imaginário local. Agradecidos, como convém.
Sim, já sei: vão dizer-me que sou um mal-agradecido. Logo eu, que nunca dei um mísero fontanário ao mais pequeno adro de igreja, a querer agora criticar a ideia de uma fundação. Quando não é nada disso: o que queria é que a fundação tivesse crescido noutro recanto da cidade que não aquele. Assim como aconteceu, mais parece que o propósito maior era afagar o ego do cidadão ilustre, não qualificar o seu burgo natal. Ainda por cima desmesurada em tamanho, com fachada visível a quilómetros de distância. Freud explica isto.
E o barroco tardio. O barroco tardio também explica muito isto. Vamos, portanto, ter uma estátua ao bombeiro numa rotunda da cidade. Agora tomem nota: é uma estátua sectária. Porque não é ‘ao bombeiro’ (como a outra): esta nova estátua é especifica, exclusiva e sectariamente dedicada aos bombeiros da ‘Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Famalicão’.
Sucede que em Famalicão temos duas corporações de bombeiros. Eu desde já sugiro aos bombeiros ‘Famalicenses’ que evitem aquela rotunda. Escusam de se incomodar, não foi feita para eles. Desopilem dali para fora, estão a mais. Vão estar a mais.
Mas também não se preocupem em demasia, de certeza que está tudo pensado. Reparem: para o ano, a mui gloriosa ‘Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Famalicenses’ celebra cem anos de existência. Eu cá aposto noventa mil euros do meu parco pecúlio desabonado de homenagens camarárias que vai sair outra estátua do erário público. Sectária, com toda a certeza. Tem é ser numa rotunda!
Posto isto, o lado positivo de tanto barroco tardio? Já tínhamos uma rede museológica – com quase tantos museus como Paris! Vamos agora ter outra originalidade, que é a proliferação de estátuas sectárias. Podemos até rebaptizar a cidade e o concelho com uma nova marca promocional. Digam lá se não entra no ouvido: ‘Famalicão: capital mundial das estátuas ao bombeiro!’
Mais um passo bem dado.
____________________
Os artigos de opinião publicados no NOTÍCIAS DE FAMALICÃO são de exclusiva responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a opinião do jornal.


Comentários