Começo hoje com a partilha de uma memória pessoal, que reflete que à medida que cresci, a minha sensibilidade perante o sofrimento animal não só se manteve, como se intensificou.
Num momento ao acaso, enquanto ainda era criança, recordo-me nitidamente de ter assistido, numa plataforma digital de visualização de vídeos, a um ato de extrema crueldade contra um cão – um grupo de crianças ou adolescentes forçava um cachorrinho, que não teria mais de seis meses, a ingerir uma garrafa de picante, que foi exibida à câmara como se se tratasse de uma brincadeira. O animal debatia-se, gania, e eu não consegui ver o vídeo até ao fim. Avancei para os últimos segundos, onde já só se via o pequeno corpo inocente em decúbito lateral. O meu coração partiu-se a cada gemido, e as lágrimas escorreram-me pela cara.
Hoje, enquanto veterinária, e depois de ter contatado com animais nos mais diversos estados de sofrimento, não posso dizer que essa sensibilidade tenha diminuído. Pelo contrário: permanece intata, talvez até mais consciente.
Relembrei esta memória triste ao ler as notícias recentes sobre a morte do cão “Orelha”, na Praia Brava, em Florianópolis, no Brasil. Um cão comunitário, conhecido e acarinhado, que foi violentamente agredido por um grupo de adolescentes e que acabou por não resistir aos ferimentos graves que lhe foram infligidos. A história é macabra, cruel e profundamente perturbadora para qualquer pessoa que nutra carinho pelos animais.
Há um padrão que não podemos ignorar: em ambas as situações, os atos violentos foram cometidos por jovens, filmados e publicados.
E isto só pode levantar uma questão urgente: como travar a perpetuação deste tipo de comportamentos?
Na minha opinião, a resposta começa no seio familiar. É em casa que se formam as primeiras noções de empatia, respeito e responsabilidade. As crianças devem ser sensibilizadas desde cedo para o bem estar de todos os animais — não apenas dos que vivem connosco, mas também dos que encontramos nas ruas, nos campos, nos abrigos ou … nas praias…
Seguidamente, entra o papel das escolas. A educação para o bem estar animal deveria ser trabalhada de forma consistente ao longo dos vários anos de escolaridade, integrada em disciplinas como Cidadania e Desenvolvimento. Embora este tema já não exista como domínio isolado, continua presente noutras dimensões das aprendizagens essenciais. No entanto, a forma como é abordado varia muito entre escolas, professores e contextos.
E aqui reside o desafio: não basta que o tema exista no currículo; é preciso que seja vivido, discutido e compreendido.
Falar de bem estar animal não é apenas ensinar que não se deve maltratar. É ensinar a reconhecer sinais de medo, dor ou desconforto; a compreender que um animal é um ser senciente; a perceber que cada gesto nosso tem impacto no outro — mesmo quando esse “outro” não fale a nossa língua.
Educar para o bem estar animal é, no fundo, educar para a empatia.
E uma sociedade mais empática é, inevitavelmente, uma sociedade mais segura, mais justa e mais humana.
Se queremos evitar que histórias como a do cachorrinho do vídeo ou a do “Orelha” se repitam, temos de começar por onde tudo se constrói: na educação.
A dos mais novos, mas também a nossa, enquanto adultos responsáveis pelo exemplo que deixamos.
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