O nosso concelho é um dos maiores exportadores do País e vive quase em pleno emprego como a generalidade do País.
Ok, já sabemos isso mas é importante não esquecer.
Devo confessar que não estou surpreso, mas há momentos na política em que já não há espaço para ingenuidade.
Está a ser planeada a maior agressão de sempre aos trabalhadores portugueses e a maior regressão à lei do trabalho.
O novo projeto de revisão do Código do Trabalho, cozinhado pelo PSD com o apoio previsível do Chega, é um atentado à vida social de todos nós.
Para mim não se trata de uma reforma legislativa, mas sim uma regressão, e das claras.
Sendo eu de Marketing e Gestão percebi claramente porque a agência de comunicação contratada escolheu a palavra
“modernização”. Uma palavra bonita mas vazia e frequentemente usada quando se quer fazer passar retrocessos por inevitabilidades.
Mas já se questionaram sobre isto?
Alteração ao código de trabalho quando estamos em pleno emprego?
Há um poder instalado que quer essas mudanças cirúrgicas mas no sentido oposto aos interesses dos trabalhadores.
Dou como exemplos a facilitação de despedimentos, maior flexibilidade nos horários (leia-se: imprevisibilidade total na vida de quem trabalha), enfraquecimento da negociação coletiva e mais margem para contratos instáveis. Tudo isto embrulhado na velha narrativa da “competitividade”.
Competitividade de quem?
O nosso tecido empresarial já por si é frágil, de um custo unitário baixo e por lógica com margens pequenas em termos percentuais e monetários.
O governo está novamente a passar uma mensagem de humilhação aos trabalhadores.
A mensagem é clara, dizem que não somos produtivos em relação a outros países e que as empresas fazem um esforço enorme para manter os postos de trabalhos.
Vamos então analisar a produtividade:
Começar por comparar a produtividade entre Alemanha, França e Portugal como se fosse uma corrida em pista igual é, desde logo, um erro de diagnóstico.
Sabemos que os números podem sugerir diferenças, mas é certo que ignoram uma realidade essencial: assentam em tecidos económicos profundamente distintos.
A Alemanha e França construíram, ao longo de décadas, uma economia fortemente ancorada em indústria de elevado valor acrescentado, como: automóveis, maquinaria pesada, química fina e engenharia de precisão. Quando uma fábrica alemã ou francesa produz um automóvel, incorpora tecnologia, investigação, patentes, automação e cadeias logísticas altamente sofisticadas. Cada hora de trabalho gera muito mais valor económico porque o produto final vale incomparavelmente mais.
Aqui em Portugal isso não se verifica. Continuamos excessivamente dependentes de sectores como o têxtil, vestuário, calçado e serviços de menor intensidade e exigência de tecnológica.
Este é o ponto central da questão.
Uma coisa é produzir meias, camisolas ou peças de roupa, outra é produzir carros, motores ou equipamentos industriais complexos.
Não se mede da mesma forma o valor criado por quem cose uma peça têxtil e por quem integra componentes eletrónicos num automóvel BMW ou num Renault.
Dizer, portanto, que “os trabalhadores alemães ou franceses são mais produtivos do que os portugueses” sem olhar para esta diferença estrutural é simplista e injusto.
A mensagem que está a ser passada desde sempre pelos patrões, empresários e agora o governo do PSD/ CDS é a de mais uma vez humilhar os trabalhadores portugueses e com isso aceitar a nova lei laboral.
Não se deixem enganar, se em muitos casos, o trabalhador português produz menos valor não porque trabalhe menos ou pior, mas porque está inserido em sectores que geram margens mais baixas.
Também é verdade que os portugueses estão a colher o que plantaram.
A política não cai do céu. A política resulta de escolhas, de votos, de decisões conscientes. Quem hoje se revolta com estas propostas devia perguntar-se, quem colocou estas forças políticas na posição de decidir o rumo do país?
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