Há uma realidade que se repete, dia após dia na clínica, chegam cada vez mais jovens com ansiedade, crises de pânico, insónias, medo de falhar e uma pressão enorme para serem perfeitos. É impossível ignorar este sinal.
Há alguns anos, em 2019 quando trabalhava no INEM, uma das situações que mais me marcava era o número crescente de chamadas para socorrer pessoas em pleno ataque de pânico e de ansiedade. Muitos eram jovens. Na altura parecia preocupante.
Hoje, olhando para a realidade que encontro na clínica, percebo que esse fenómeno não era passageiro. Era apenas o início de um problema silencioso que continua a crescer. Encontro uma realidade que já não pode ser ignorada: adolescentes e jovens adultos chegam com ansiedade e crises de pânico. Não são casos isolados, são o reflexo de uma sociedade que confunde sucesso com felicidade.
Vivemos numa sociedade que valoriza o desempenho acima do bem-estar. Crianças com agendas de adultos, horários preenchidos, pouco tempo para brincar, descansar ou simplesmente serem crianças. Crescem com agendas cheias e corações exaustos. Desde cedo aprendem que têm de ser os melhores, os mais rápidos, os mais inteligentes, os mais bem-sucedidos.
E, muitas vezes, sem intenção, são os próprios pais que alimentam esta pressão. Quando ouvimos frases como “o meu filho é o melhor da turma”, “tem sempre excelentes notas”, “faz tudo bem”. Palavras ditas com amor e orgulho, sem dúvida. Mas, por vezes, escondem uma armadilha perigosa: a ideia de que o valor de uma criança depende da sua capacidade de corresponder sempre às expectativas.
E esse pode ser um dos maiores erros da nossa geração de pais e educadores.
As crianças não precisam de ser perfeitas. Nenhuma criança é boa em tudo. Nem precisa de o ser. Precisam de poder errar sem medo, de sentir que são amadas independentemente das notas, dos resultados ou das medalhas.
Precisam de aprender que falhar faz parte da vida e que a autoestima não se constrói apenas com sucesso, mas também com aceitação, resiliência e afeto.
Quando crescemos convencidos de que temos de ser perfeitos, qualquer erro se transforma numa ameaça. E é aí que a ansiedade encontra terreno fértil. A ansiedade não é uma fraqueza. Não é falta de vontade. É um sofrimento real que merece ser ouvido e tratado.
Procurar apoio psicológico não significa que alguém falhou como pai, mãe ou educador. Pelo contrário, significa reconhecer que a saúde mental é tão importante como a saúde física. Quanto mais cedo identificarmos os sinais, maiores são as possibilidades de prevenir um sofrimento que pode acompanhar uma pessoa durante muitos anos.
A saúde mental não se protege apenas nos consultórios. Protege-se em casa, quando substituímos a pressão pela escuta. Na escola, quando valorizamos o esforço mais do que a classificação. E na sociedade, quando deixarmos de perguntar apenas “Que nota tiveste?”, talvez devêssemos perguntar: “Como te sentes hoje?”
Porque uma boa nota pode abrir portas. Mas uma boa saúde mental abre caminho para uma vida inteira.
Que saibamos criar crianças menos perfeitas e mais felizes. Menos pressionadas e mais livres. Menos ansiosas e mais seguras de que o seu valor nunca dependerá de serem as melhores, mas simplesmente de serem quem são.


Comentários