Partir para crescer, o valor de procurar mais mundo

Partir não é abandonar. É, muitas vezes, uma forma de regressar melhor.

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A emigração de jovens qualificados é, há muito, presença constante no debate público em Portugal. A explicação surge quase sempre simplificada, lá fora paga-se melhor, logo os jovens partem. Há verdade nisso, mas fica muito por dizer.

Nem só pelo dinheiro se emigra.

Quem investe anos a estudar, a especializar-se, a aprofundar conhecimento técnico e científico, não procura apenas um salário mais elevado. Procura contexto, procura exigência, procura ambientes onde o que aprendeu é posto à prova todos os dias, onde pode continuar a aprender, a falhar, a experimentar e a evoluir.

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Mas há um outro lado, tantas vezes ignorado, e que importa reconhecer com justiça. Partir é também um acto de curiosidade e ambição saudável. É a vontade de ver mais, de fazer parte de equipas diversas, de trabalhar em culturas diferentes, de contactar com novas formas de pensar, de resolver problemas e de construir soluções. É viver experiências que dificilmente cabem dentro de uma só geografia.

Em muitas áreas científicas, a dimensão pesa. Portugal, pela sua escala, dificilmente compete com países como Alemanha, Estados Unidos, Noruega ou Holanda. Não é apenas uma questão de investimento, é uma questão de massa crítica, de ecossistemas completos, de proximidade entre investigação, indústria e financiamento. Para quem quer estar na linha da frente, a escolha é muitas vezes simples, ir onde o conhecimento está a ser criado.

Na engenharia, essa realidade também se faz sentir. Nos países nórdicos, o desenvolvimento de produto é estruturado, iterativo, profundamente ligado ao utilizador e à cadeia de valor. As práticas são sólidas, amadurecidas ao longo de décadas, suportadas por culturas que valorizam o rigor, a qualidade e a melhoria contínua. Para quem quer aprender com os melhores, o contacto com estes ambientes é, em si, uma escola.

Portugal seguiu outro caminho. Afirmou-se, e bem, como país de produção. Ganhou capacidade industrial, tornou-se competitivo, construiu reputação na execução. Nos últimos anos, tem procurado evoluir, aproximar-se de uma lógica de produto, adotar melhores práticas de engenharia, investir em inovação.

E isso é relevante.

Porque também é verdade que muitos dos que partem acabam por levar consigo uma ligação ao país. Aprendem lá fora, crescem, contactam com novas realidades, e, em muitos casos, trazem de volta conhecimento, exigência e ambição. Mesmo quando não regressam, contribuem para uma rede global que, cada vez mais, também é portuguesa.

Talvez a pergunta não deva ser apenas porque é que partem, mas também o que ganham ao partir.

Ganham mundo. Ganham experiência. Ganham perspetiva.

E nós, enquanto país, temos a oportunidade de transformar essa saída em circulação, em aprendizagem contínua, em ponte com o que de melhor se faz lá fora.

Se quisermos reter talento, sim, é importante melhorar condições. Mas é igualmente importante criar contextos onde aprender, inovar e crescer seja possível, onde ficar não seja um compromisso, mas uma escolha natural.

Porque, no fim, partir não é abandonar. É, muitas vezes, uma forma de regressar melhor.

 

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