“Cogito, ergo sum” – penso, logo existo

Um líder não se define pelo que faz diante das câmaras, mas pela visão que sustenta quando o palco se apaga.

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Representa a primeira certeza da filosofia moderna: mesmo duvidando de tudo, o indivíduo não pode duvidar de que está a pensar e, logo, de que existe como “substância pensante”. E é precisamente o pensamento crítico que distingue o verdadeiro líder do mero executante.

Na política, essa distinção é essencial. O ser pensante deve liderar o ser fazedor. Governar não é apenas fazer; é saber para onde se vai antes de começar a fazer.

Hoje, porém, assistimos ao contrário.

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Assistimos a uma política de aparência. Uma política de gestos visíveis, imediatos, quase performativos. O presidente que se mostra nas ruas, que varre, que limpa, que aspira. Não por necessidade estrutural, mas para ser visto. Porque, como se diz, quem não é visto, não é lembrado.

Mas importa perguntar: e depois?

Depois de varridas as folhas, qual é o rumo?

Um líder não se define pelo que faz diante das câmaras, mas pela visão que sustenta quando o palco se apaga. O homem sem visão não governa, transforma-se num fingidor. E um líder sem rumo deixa de servir a comunidade para passar a servir apenas a sua própria imagem.

Joane celebrou 40 anos de elevação a Vila. Um marco histórico. Um momento que deveria ter sido digno, mobilizador e agregador de toda a comunidade. Era uma oportunidade para afirmar identidade, reforçar o orgulho coletivo e projetar um futuro comum.

Imaginava-se uma vila engalanada, memórias partilhadas entre gerações, uma celebração à altura da sua história e da sua gente.

Mas a realidade foi outra.

A celebração resumiu-se a um saco de papel com um autocolante alusivo aos 40 anos.

Um símbolo pequeno para uma história grande.
Um sinal claro de falta de ambição.

E não se trata apenas de um detalhe. Trata-se de um reflexo.

Reflexo de uma liderança sem visão estratégica, incapaz de pensar a freguesia a longo prazo. Os problemas estruturais mantêm-se. As soluções abrangentes continuam por aparecer. E o futuro vai sendo adiado, enquanto se privilegia o imediato e o visível.

Pergunta-se então: foi descuido? Foi falta de meios? Ou foi simplesmente ausência de pensamento?

A pergunta impõe-se: foi descuido? Foi falta de meios? Ou foi apenas desinteresse?

Se foi por constrangimentos herdados, então mais grave ainda – porque governar é precisamente saber romper com o passado quando esse passado limita o futuro.

Se não houve capacidade para definir um novo rumo, então o que temos não é mudança – é continuidade.

E Joane merece mais do que continuidade.

Merece futuro.

E assim voltamos ao essencial: ao ser pensante que se faz ação. Porque é preciso pensar Joane para verdadeiramente fazer Joane.

Assim, quando virem pelas ruas de Joane o presidente da junta, passada a procissão, perguntem:

Sr. Presidente, e agora?

 

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