APMEDIO apresenta queixa à ERC contra o “efe”, jornal da Câmara Municipal de Famalicão

Associação de media denuncia conteúdos jornalísticos pagos pela Câmara. Processo pode ir parar ao Ministério Público. Queixa surge dois meses depois de tensão na Assembleia Municipal sobre a publicação.

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A Associação Portuguesa dos Media Digitais Online (APMEDIO) apresentou, a 15 de junho, uma participação junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) contra o “efe”, o jornal municipal de Vila Nova de Famalicão dirigido pelo presidente da Câmara, Mário Passos.

O documento, dirigido à presidente do Conselho Regulador da ERC, Helena Sousa, pede que a entidade determine se a publicação “excede o âmbito da comunicação institucional legalmente atribuída aos municípios” e desenvolve “atividade editorial materialmente equiparável” à de um órgão de comunicação social.

A queixa incide sobre as duas primeiras edições do “efe” e sustenta que ambas combinam, no mesmo suporte, conteúdos jornalísticos, comunicação institucional legítima, comunicação política e propaganda, sem que, segundo a associação, essas naturezas distintas sejam identificáveis pelo leitor.

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Análise página a página

Segundo o levantamento apresentado pela APMEDIO, a edição n.º 1 do “efe”, com 24 páginas, inclui 14 páginas com reportagens ou peças jornalísticas e uma peça de opinião assinada por um autor não eleito, a par de 8 páginas com conteúdos que a associação classifica como comunicação política ou propaganda institucional. A mesma edição contabiliza 12 referências ao presidente da Câmara distribuídas por seis páginas e duas referências a vereadores com pelouro, além de menção expressa ao financiamento público da publicação.

Na edição n.º 2, também com 24 páginas, a APMEDIO identifica 16 páginas de conteúdo jornalístico, 4 páginas de comunicação política ou propagandística, 4 referências ao presidente da Câmara, uma referência a um vereador com pelouro e um artigo de opinião assinado por um não eleito.

Remessa do processo ao Ministério Público

A participação enquadra o caso à luz de vários instrumentos: a Lei n.º 75/2013 (Regime Jurídico das Autarquias Locais), que define as competências dos órgãos municipais e que, segundo a APMEDIO, não contempla o exercício regular de atividade editorial; a Diretiva n.º 1/2008 da ERC sobre publicações periódicas autárquicas; o Regulamento (UE) 2024/1083, conhecido como European Media Freedom Act, relativo à proteção do pluralismo e da independência editorial; e princípios constitucionais de liberdade de imprensa e de não distorção da concorrência informativa.

A Associação pede ainda à ERC que avalie o eventual impacto concorrencial do “efe” sobre os órgãos de comunicação social locais e regionais, financiados por meios próprios, e que analise se a publicação atribui destaque promocional a entidades privadas. Entre os pedidos formais consta a remessa do processo ao Ministério Público caso se apurem violações de normas legais imperativas.

A APMEDIO sublinha, no entanto, que a participação “não visa impedir a comunicação institucional dos municípios” nem questiona a legitimidade de a Câmara informar os munícipes sobre a sua atividade e serviços.

Polémica já tinha chegado à Assembleia Municipal

A queixa à ERC surge depois de o “efe” ter sido, em abril, o centro de um debate aceso nas duas sessões da Assembleia Municipal de Famalicão, realizadas nas noites de 27 e 28 desse mês.

Na ocasião, José António Oliveira Dias, da direção da APMEDIO, deslocou-se a Famalicão para alertar os deputados municipais de que o “efe” constitui, na sua leitura, “uma edição jornalística travestida de comunicação institucional”, defendendo que a situação exige uma tomada de posição da Assembleia Municipal.

O “efe” tem periodicidade bimestral: a edição n.º 1 foi distribuída a 19 de fevereiro e a n.º 2 a 22 de abril. Seguindo esse calendário, a terceira edição seria expectável para meados de junho, mas o mês terminou ontem e tal não aconteceu.

O NOTÍCIAS DE FAMALICÃO contactou a o gabinete de comunicação da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, nomeadamente sobre a queixa da APMEDIO junto da ERC e sobre as razões do atraso na edição do bimestre maio/junho do “efe”.

A assessoria de Mário Passos não respondeu às questões do nosso jornal, mas há cerca de uma hora publicou a nova edição do “Efe” nas redes sociais da Câmara Municipal.

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